Viola Tropeira

Trecho da música "Amanheceu Chovendo",que está no Cd "Viola Tropeira" de Ricardo Anastacio a venda pelo  pelo email violatropeira@terra.com.br ou pelo fone: 15 9701-7068             Chat aos domigos à partir das 15h para tirar dúvidas sobre viola            Aulas online        Métodos de Viola com Cd de Rítmos e Ponteados

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Cornélio Pires O Pioneiro

A turma caipira de Cornélio Pires.Foto histórica de 1929, vendo-se da esquerda para a direita, em pé: Ferrinho, empunhando a "puíta", Sebastião Ortiz de Camargo (Sebastiãozinho), Caçula, Arlindo Santana; sentados: Mariano, Cornélio Pires e Zico Dias.

 

   O Bandeirante da Música Caipira

           Jornalista , escritor, poeta, folclorista e cantador, ele foi o primeiro a gravar um disco de música caipira. É também obra sua a divulgação desta música , através de um Teatro Ambulante.

          A história do disco caipira, de tão grande sucesso nos dias atuais, começa em maio de 1929, com a primeira gravação da Turma de Cornélio Pires . Era um 78 rotações de rótulo vermelho, que levava o selo Columbia. De um lado, “Jorginho do Sertão” e , do outro, “Moda de Pião”, ambas de autoria do próprio Cornélio.

        E quem seria Cornélio Pires,considerado o “bandeirante da música caipira”?

        Natural da cidade de Tietê (SP), escritor , folclorista, Jornalista, poeta e cantador , Cornélio nasceu a mais de cem anos atrás , em 1884.Foi com ele que a música sertaneja passou a ser encarada sob o ponto de vista profissional. A princípio, por volta de 1914, Cornélio dedicava-se a organizar espetáculos pelo interior de São Paulo , para divulgar a arte caipira e apresentar artistas sertanejos: eram as Conferências Cornélio Pires.

        Com o passar do tempo, aquelas apresentações tomaram jeito de espetáculos, e foi a  essa altura que Cornélio Pires tomou a iniciativa de gravar um disco. Ao chegar em São Paulo, porém , viu seu grande sonho cair água abaixo : gravadora alguma queria arriscar um tipo de música que , acreditavam , não teria receptividade junto ao público.

        Confiante em seus propósitos , Cornélio não desistiu. Ao contrário , armou-se de toda sua força de vontade , juntou-se a alguns amigos ( as duplas Zico Dias e Ferrinho, Mandi e Sorocabinha, Mariano e Caçula) e pagou para gravar seu próprio disco.Lançava, assim , em maio de 1929, a Série Caipira Cornélio Pires. Pode-se dizer , portanto, que ele foi um dos primeiros “independentes” da música brasileira.

        De cara , “Jorginho do Sertão” e “Moda de Pião” desmentiram as previsões das gravadoras :em apenas 20 dia , o disco estourava com cinco mil cópias vendidas. Vitorioso , Cornélio passou a ser assediado por propostas tentadoras das mesmas companhias que antes o ignoraram. Não aceitou esses convites, decidido a continuar financiando seus discos. E sucederam-se as gravações : “Entre Alemão e Italiano”, “Anedotas Norte-americanas”, “Astúcias de Negro Velho”, “Rebatidas de Caipira”, “Numa Escola Sertaneja”, “Coisas de Caipira”, “Batizado de Sapinho”, “Desafio Caipira”e “Verdadeiro Samba Paulista”, grandes sucessos na época .

        De sucessos em sucesso , criou em 1946, o Teatro Ambulante Cornélio Pires, composto de dois carros , um com biblioteca e outro com discoteca para percorrer o interior paulista, onde apresentava-se em praça públicas. Em 1948, recebia o patrocínio da Companhia Antártica Paulista, que distribuía bonés com sua marca  durante os shows de seu grande astro .

        Antes de morrer de um câncer na laringe , em 1958, Cornélio Pires pode se orgulhar por ter aberto caminho para os programas de música sertaneja nas rádios do país. Foi também a luz que indicou às gravadoras o novo e bem-sucedido caminho da música sertaneja. Uma dessas gravadoras ,a RCA Victor, não demorou a formar a Turma Caipira Victor pra lançamentos exclusivos na área . E , no  ano mesmo de sua morte, Cornélio Pires saboreou mais uma vitória : a apresentação de um espetáculo caipira no Teatro Municipal de São Paulo, templo sagrado da música clássica. Era , já naquela época, o triunfo da música caipira , e de Cornélio Pires.

 

       

Museu de Tietê. Localizado no Largo São Benedito, 20, bem no centro da cidade, ao lado da Igreja centenária de São Benedito. O horário de funcionamento é das 9 às 11 h e das 13 às 17 h, de segunda a sexta-feira. Além de Cornélio, o museu abriga as obras de outros filhos importantes, como por exemplo o famoso músico brasileiro Mozart Camargo Guarnieri, o historiador Benedicto Pires de Almeida, autor da Cronologia Tieteense, cobrindo o período de 1783 a 1978. O museu possui cerca de 2000 peças catalogadas, além de abrigar a biblioteca municipal.




 

DISCOGRAFIA e FILMOGRAFIA DE
CORNÉLIO PIRES


 

DISCOGRAFIA DE CORNÉLIO PIRES

Série Caipira"Cornélio Pires"

Gravadora Colúmbia

 

MAIO DE 1929

 

 - ANEDOTAS NORTE AMERICANAS e ENTRE ITALIANO E ALEMÃO - Anedotas - Cornélio Pires.

 - REBATIDAS DE CAIPIRAS e ASTÚCIA DE NEGRO VELHO - Anedotas - Cornélio Pires.

 - SIMPLICIDADE e NUMA ESCOLA SERTANEJA - Anedotas - Cornélio Pires.

 - COISAS DE CAIPIRA e BATIZADO DO SAPINHO - Anedotas - Cornélio Pires.

 - DESAFIO ENTRE CAIPIRAS e VERDADEIRO SAMBA PAULISTA - Turma Caipira Cornélio Pires.

 - ANEDOTAS CARIOCAS - Cornélio Pires.

-DANÇAS REGIONAIS PAULISTAS- Cana-Verde-Cururu - Turma Caipira Cornélio Pires.

 

OUTUBRO DE 1929

 

 - COMO CANTAM ALGUMAS AVES - Imitações - Arlindo Sant¢ Anna.

- JORGINHO DO SERTÃO - Moda de Viola - Mariano & Caçula (da Turma Caipira Cornélio Pires).

- A FALA DOS NOSSOS BICHOS - Imitações - Arlindo Sant'Anna.

- MODA DO PEÃO - Moda de Viola - Cornélio Pires e Turma Caipira Cornélio Pires.

-OS CARIOCAS E OS PORTUGUESES - Anedota - Cornélio Pires.

- MECÊ DIZ QUE VAI CASÁ - Moda de Viola -(de Nitinho Pinto) - C/ Zico Dias e Sorocabinha (da Turma Caipira Cornélio Pires).

- TRISTE ABANDONADO - Moda de Viola, com Zico Dias e Sorocabinha.

- NO MERCADO DOS CAIPIRAS - Anedota - Cornélio Pires.

 - AGITAÇÃO POLÍTICA EM SÃO PAULO e CAVANDO VOTOS - Anedotas - Cornélio Pires.

 

SEM DATA

 

 - UM BAILE NA ROÇA e UMA LIÇÃO COMPLICADA -Cornélio Pires & Arruda.

 - AS TRÊS LÁGRIMAS-(Declamação) - Campos Negreiros.

 -PUXANDO A BRASA - Anedota - Cornélio Pires & Arruda.

 - A MODA DA REVOLUÇÃO - Moda de Viola - Cornélio Pires e Arlindo Sant'Anna,

 - VIDA APERTADA - Anedota -Cornélio Pires & Arruda.

 - CATERETÊ PAULISTA- Cornélio Pires e Arlindo Sant'Anna.

 - NITINHO SOARES - Moda de Viola - Cornélio Pires, Mariano & Caçula (TCCP).

 - O BONDE CAMARÃO - Moda de Viola.

 - SÔ CABOCRO BRASILÊRO - Moda de Viola.

 - CP e Mariano & Caçula (TCCP).

 

ABRIL 1930

 

 - NAQUELA TARDE SERENA - Contra-Dança Mineira - CP, com Antônio Godoy e sua Mulher.

 - TOADA DE CURURU - Contra-Dança Paulista - CP, com Mariano & Caçula (TCCP).

 - SABIÁ ME FAIZ CHORÁ - Contra-Dança Mineira - CP, com Antônio Godoy e sua Mulher.

- A BRIGA DOS VÉIO - Moda de Viola - CP, com Mariano & Caçula (da TCCP).

- TRISTE APARTAMENTO - Moda de Viola Mineira, e PORFIANDO - Desafio, com Antônio Godoy e sua Mulher.

- BATE PALMA - Contra-Dança Mineira.

- NAS ASAS DE UM BEJA-FLÔ - Moda de Viola - CP, com A. Godoy e sua Mulher.

- TOADA DO CATERETÊ e TOADA DE SAMBA - CP, com Mariano & Caçula (da TCCP).

 - SITUAÇÃO ENCRENCADA - Moda de Viola.

- ESCOIENO NOIVA - Moda de Viola, com Caipirada Barretenses .

 

JUNHO DE 1930

 

 - BIGODE RASPADO - Moda de Viola, com Mariano e Caçula (da TCCP).

- ESTRAGUEI A SAPAIADA - Anedota -CP.

 - A MINHA GARCINHA BRANCA - Toada - Com Antônio Godoy e sua Mulher.

- TOADA DE CANA-VERDE - Com Mariano e Caçula (da TCCP).

 - RECORTADO - Caipirada Barretense.

-  A FESTA DO GENARO - CP

 - UMA SESSÃO SOLENE e NAS TOURADAS - Anedotas -Cornélio Pires.

 

JULHO DE 1930

 - O ZEPELIM - Moda de Viola.

- O SUBMARINO - Moda de Viola - CP com João Negrão.

 - CABOCLA MALVADA (Declamação) - Campos Negreiros.

- A PLATAFORMA DO PREFEITO - Anedota - Com Arruda.

 - MODA DO RIO TIETÊ- Moda de Viola - CP, com João Negrão.

- CORAÇÃO MAGUADO - Moda de Viola - Com A. Godoy e sua Mulher.

 - CAMPO FORMOZO - Moda de Viola - CP, com Antônio Godoy e sua Mulher.

- MODA DA MARIQUINHA - Moda de Viola - CP, com João Negrão.

 - O LEILÃO DAS MOÇAS - Moda de Viola.

- JARDIM FLORIDO - Moda de Viola - CP, com João Negrão.

 

AGOSTO DE 1930

 

 - A INCRUZIADA - Canção (de Angelino de Oliveira) - Com Maracajá e Os Bandeirante.

- BOIADA CUIABANA - Com José de Messias e Os Parceiros.

 - AGÚENTA MANECO - Com Maracajá e Os Bandeirantes.

- FOLIA DE REIS - Com Foliões do Zé Messias.

 - CANTANDO O ABOIO (de CP e Angelino de Oliveira) - Com Maracajá e Os Bandeirantes.

-TOADA DE MUTIRÃO - Com Zé Messias e Os Parceiros.

 - O CABOCLO APANHA e PASSA MORENA - Contra-Dança - Com Zé Messias e Os Parceiros.

 

SETEMBRO DE 1930

 

 - O JOGO DO BICHO - Moda de Viola, e ARMINDA - Com Mariano & Caçula.

 - O SALIM FOI NO EMBRULHO - Anedota - Com Luizinho.

- FUTEBOL DA BICHARADA - Moda de Viola - Com Mariano & Caçula.

 - MULHER TEIMOSA - Com Arruda.

-NOITES DE MINHA TERRA - Valsa - Com José Eugênio Campanha e Seu Quinteto.

 - CAIPIRA VELHACO - Anedota-Com Arruda.

-O SONHO DE MARIA - Valsa - José Eugênio e Seu Quinteto.

 - O MEU BURRO SAUDOSO - Moda de Viola.

- SERÁ OS IMPOSSÍVE - Com Mariano & Caçula (da TCCP).

 

OUTUBRO DE 1930

 

 - SERENATA - Choro - Com Canário e Seu Grupo.

-QUANDO AS MISSES DESFILAVAM - Anedotas - Com Luizinho.

 - BEATRIZ - Valsa - Com Canário e Seu Grupo.

-O SALIM TOREADOR - Anedota - C/Luizinho

 

SEM DATA

 

 - GALO SEM CRISTA - Batuquinho do Norte - Com Bico Doce e Sua Gente do Norte.

- COMPARAÇÕES - Anedota -Cornélio Pires.

 - QUANDO O ZIDORO VORTÔ e OS DESCONTENTES -Anedotas - Cornélio Pires.

 - GAVIÃO DE PENACHO - Embolada.

-QUE MOÇA BONITA - Variação de Samba - Com Bico Doce e Sua Gente do Norte.

 - RECULUTANDO - Samba do Norte - Com Bico Doce e Sua Gente do Norte.

-BOM REMÉDIO - Anedota - Cornélio Pires.

 - O MEU VIVA EU QUERO DÁ - Moda de Viola.

- SE OS REVORTOSOS PERDESSE - Moda de Viola - Com Mariano& Caçula.

 - LEGIONÁRIOS, ALERTA! - Marcha - Com José Eugênio e Seu Grupo.

-QUI-PRO-QUÓ - Anedota - Cornélio Pires.

 - TRISTE ABANDONADO - Moda de Viola.

- MECÊ DIZ QUE VAI CASÁ - Moda de Viola - Com Zico Dias e Sorocabinha (da TCCP).

 - MODA DA REVOLUÇÃO - Moda de Viola.

-BIGODE RASPADO - Moda de Viola - CP e Mariano & Caçula.

 - VOU ME CASÁ COM CINCO MUIÉ - Moda de Violas .

- VANCÊ É UM PANCADÃO - Moda de Viola - Com a TCCP.



 

História da Gravação e Estudos da
Discografia de Cornélio Pires

"O diretor da Colúmbia - representante local da Byington & Company - era o americano Wallace Downey que mais tarde, em 1931, interessado pelo Brasil, seria o produtor do filme "Coisas Nossas". Ariowaldo Pires, o saudoso Capitão Furtado, sobrinho de Cornélio, era o intérprete (falava bem o inglês), de Downey Cornélio pediu ao sobrinho que lhe encaminhasse a Downey .Mas este só tratava da fase preliminar dos negócios da gravadora. Encaminhou Cornélio ao escritório do Dr Alberto Jackson Byington Jr, o proprietário da empresa. Propôs a gravação de anedotas e de músicas caipiras. Contou, o Capitão Furtado ao pesquisador Abel Cardoso Júnior que registrou no seu livro "Cornélio Pires, O Primeiro Produtor Independente de discos no Brasil" Fundação Ubaldino do Amaral, Sorocaba, 1986, que o empresário lhe disse: - Gravarem discos anedotas e violeiros? Isso é mais uma piada sua".

O escritor e pesquisador J. L. Ferrete no seu livro "Capitão Furtado - Viola Caipira ou sertaneja"?, tomando o depoimento de Ariowaldo Pires, registrou a resposta de Byington: - Não há mercado para isso, não interessa". Cornélio insistiu. "E se eu gravar por conta própria"? Aí Byington Jr tentou opor dificuldades: "Bem, nesse caso você teria que comprar mil discos. Quero dinheiro á vista, nada de cheque, e se o pagamento não for feito hoje mesmo, nada feito". Era uma forma, note-se, de descarte peremptório ou, em outras palavras, propostas de quem não quer mesmo fazer negócio".

"Cornélio Pires fez com Byington o cálculo de quanto custaria os mil discos e saiu. Foi á procura de um amigo seu na rua Quinze de Novembro (centro de São Paulo), um tal de Castro, e pediu-lhe o dinheiro emprestado. Retornou em seguida á sede da empresa e, entrando na sala de Byington Jr., jogou sobre a mesa deste, um grande pacote embrulhado em jornal. "O que é isso"?, perguntou-lhe Byington espantado. "Uai, dinheiro"! Você não queria dinheiro?, respondeu Cornélio. Byington abriu o pacote e não disfarçou o seu assombro: "Mas aqui tem muito dinheiro"! "E' que, ao invés de mil discos, eu quero cinco mil" explicou Cornélio Pires". Meio aturdido, Byington Jr tentou convencê-lo de que cinco mil era muita coisa, era "uma loucura". Naquele tempo não se faziam prensagens iniciais em tais quantidades nem para artistas famosos! Cornélio, porém, foi mais além do espanto em que deixou o dono da gravadora: "Cinco mil de cada, porque já no primeiro suplemento vou querer cinco discos diferentes e portanto são 25 mil discos".

Aqui há um engano, que quase todos os pesquisadores têm repetido. No primeiro suplemento saíram 6 discos diferentes. Em vez de 25 mil, foram lançados 30 mil discos, em Maio de 1929, segundo fontes concretas, prestadas pelo criterioso pesquisador o professor Nirez. A confusão se faz e é evidente que se faça, porque em Outubro de 1929, no segundo suplemento, é que Cornélio lançou 5 discos, com também cinco mil de cada, totalizando dessa forma, os 25 mil discos.

Fez o pagamento, pegou o recibo, e estabeleceram o seguinte contrato: os 30 mil discos, da primeira prensagem, teriam uma Série Especial sua, a "Série Cornélio Pires" partindo do número 20.000, com o selo vermelho, custariam 2 mil réis a mais do que os de Byington, e somente Cornélio poderia vendê-los. Acertadas as bases, Cornélio viajou a Piracicaba e de lá trouxe á Capital (com despesa paga) a sua "Turma Caipira", para participar das gravações, com três músicas.

Em 1927, a gravação elétrica chegava ao Brasil, facilitando as gravações. Não era mais preciso dar aquele berro, que o folclorista Paixão Cortês, tem mostrado nas suas palestras, das gravações da Casa A Elétrica, de Savério Leonetti (em 1914) em Porto Alegre. Agora (de 1926 em diante), já se podia gravar com voz normal.

A "Turma Caipira de Cornélio Pires"(em sua 1a. fase) era composta por Arlindo Santtana, Sebastião Ortiz de Camargo (o Sebastiãozinho), Zico Dias, Ferrinho, Mariano da Silva, Caçula e Olegário José de Godoy (o Sorocabinha)."

Mas depois de algumas décadas, a pesquisa e análise de seu segundo biógrafo Macedo Dantas, em "Cornélio Pires Criação e Riso"-(1976), o qual depois de minuciosamente apurar, chegou a conclusão de que a discografia mais precisa que obteve por intermédio do Capitão Furtado, foi a do musicólogo e pesquisador de Fortaleza, diretor do Museu Cearense de Comunicação, Miguel Ângelo Azevedo (Nirez), uma relação constante de todos os discos, dos quais falam Joffre Martins Veiga, Alceu Maynard Araújo e Dr. Oswaldo Estanislau do Amaral. Isto é, há divergências quanto ao número de discos levantados por eles, por exemplo: Joffre, menciona 100 ou 110, mas relaciona apenas 16 discos, já Alceu Maynard Araújo, mencionou em sua palestra, 108, mas relaciona apenas 48, dizendo que não conseguiu relacionar mais 6 discos, os quais não conseguiu encontrá-los. Então, certamente temos 48 discos garantidamente catalogados na Colúmbia. Isto não quer dizer que Cornélio e sua turma Caipira, não gravou os 108 ou 110 discos já ditos por Joffre e Alceu. O que ocorre, ou ocorreu quando das pesquisas feitas pelos nobres estudiosos do assunto, é que já não encontravam na época em que pesquisavam, ninguém que tivesse todos os discos de Cornélio, bem como, apesar de todos os esforços feitos por eles, colheram o que foi possível nos catálogos que ainda encontraram dos discos gravados pela Colúmbia, o que pode, pelo tempo, não ser a relação definitiva de sua discografia. Uma coisa é certa, Cornélio gravou apenas para a Colúmbia, para a Odeon, não. Aliás, Macedo Dantas nem sequer recebeu resposta da carta enviada á Matriz do Rio.

Por isso, em sua obra "Cornélio Pires - Criação e Riso"(1976), Macedo Dantas, na página 337, nos aconselhou na época, para que fôssemos cautelosos e que ficássemos por enquanto com os discos encontrados, que era e é um serviço notável ao Folclore Brasileiro. Ninguém está impedido de investir pesquisas sobre o assunto. Podem, os que assim desejarem, a partir de hoje.
 

Os dados acima, referentes aos discos lançados por Cornélio Pires, foram coletados no livro "Turma Caipira Cornélio Pires", da autoria de Israel Lopes, estudioso do assunto, editado na comemoração dos 70 anos da música sertaneja, em 1999. O autor diretor do Departamento de Letras do Centro Cultural de São Borja (RS) e é ligado à vários movimentos culturais gaúchos.

 

FILMOGRAFIA DE CORNÉLIO PIRES



 

Seu Interesse pelo Cinema, como surgiu?

Em 1922, um ano após publicar "Conversas ao Pé do Fogo", Cornélio esteve no Rio de Janeiro, onde se exibiu em algumas casas de diversões. E, ao apresentar-se num espetáculo beneficente na Associação Brasileira de Imprensa, logo após o encerramento, recebeu os cumprimentos do Maestro Eduardo Souto, santista de nascimento mas que fez carreira no Rio de Janeiro, tornando-se um dos maiores compositores populares de seu tempo, o qual convidou Cornélio para que formassem um grupo regional. Cornélio topou, e o grupo estreou no dia da inauguração do Palácio das Festas, nas festividades comemorativas ao Primeiro Centenário da Independência.

Encantado com o resultado das cenas que haviam filmadas, e terminados seus compromissos com o maestro Eduardo Souto, o nosso querido escritor retornou a São Paulo, onde uniu-se ao cineasta Flamínio de Campos Gatti, e já em 1923, juntos partiram para as filmagens ao Nordeste do Brasil.

Cornélio produziu então, dois filmes, ou melhor, dois documentários, "BRASIL PITORESCO" (1923) e "VAMOS PASSEAR" (1934). O documentário "Vamos Passear", segundo o escritor folclorista Piracicabano, Dr. João Chiarini afirmou em seu discurso em Tietê, na la. semana "Cornélio Pires" em 1959, trata-se do lº FILME SONORO feito de maneira INDEPENDENTE, conforme podemos constatar na Revista Sertaneja, ano II, nº 17, na página 20 da mesma.

Sobre os dois filmes de sua produção, e mais outros três extraídos de suas obras, os senhores leitores poderão obter maiores informações nas transcrições a seguir, da página 327, do livro "Cornélio Pires - Criação e Riso", de seu segundo biógrafo Macedo Dantas.

 

Filmes feitos por Cornélio Pires


 

1923 - Brasil Pitoresco

Documentário em colaboração com o cineasta Flamínio de Campos Gatti. Aspectos de cidades Brasileiras. Joffre dá a data de 1923 e Maynard a de 1922. Foi realmente feito em 1923. Em sua carta a B. J. Duarte, Joffre diz que a película foi "rodada em janeiro de 1923, por Flamínio Campos Gatti e pelo próprio Cornélio Pires, focalizando aspectos de Santos, Rio, Bahia e outros Estados do Norte e Nordeste". A seu pedido, foi o filme exibido em Tietê, em Julho de 1959, com geral agrado. Informa, finalmente, que a fita estava (em 1960, data da carta de Duarte) em poder da família de Cornélio Pires. Já naquela época o grande idealista e corneliano alertava que o "filme necessitava de alguns retoques, prejudicado pela ação do tempo". Apesar de minhas pesquisas, não o localizei.

1934 - Vamos Passear

Filme sonoro, produzido após ter feito pequenos documentários (creio que estes se perderam). Vamos Passear focaliza cenas do folclore paulista e nele tomaram parte violeiros, canta dores, sertanejos. Segundo Joffre (p.1 08), "provocou desencontrados comentários". Também não descobri quem o ajudou a realizar a fita sonora.

 

Filmes Baseados nas obras de Cornélio Pires

 

1918 - Curandeiro

Roteiro extraído do conto Passe os Vinte (de Quem Conta um Conto...), filme rodado por Antônio Campos, com Sebastião Arruda como intérprete. Foi visto por Zico Pires em Tietê, no antigo Teatro Carlos Gomes. Esta informação foi colhida em Joffre (p. 108).

 

1970 - Sertão em Festa

Produzido pela Servicine, baseado na novela Sacrificados (Meu Samburá) e dirigido por Osvaldo de Oliveira. Os principais artistas foram Marlene Costa, Nhá Barbina, Francisco Di Franco, Tião Carreiro e Pardinho, Egidio Eccio e outros. O filme teve grande êxito. Nele tomaram parte catiteiros, violeiros, etc. A pré-estréia foi em Tietê, em benefício da Granja de Jesus.

1985 - A Marvada Carne

Pelo Cineasta André Klotzel, tendo ele se baseado mais principalmente na obra "As Estrambóticas Aventuras do Joaquim Bentinho, o Queima Campo" (1924), obra essa, á qual Cornélio Pires deu continuidade, concluindo e publicando em 1925.

 

 

Glossário Sertanejo

Brasileirismos, archaismos e corruptelas coligidos por Cornélio Pires e empregados na "Musa Caipira", "Scenas e paisagens de minha terra", "Quem conta um conto...", e em muitas de suas obras literárias.Foi mantida a ortografia da época por respeito ao trabalho do autor.

 

A

 

Aááb! - Exclamação correspondente a "Ave Maria", "Aáááh!...Maria Credo".

Abancamos - Sentamo-nos em bancos.

Abancar - Correr fugindo ou em perseguição de alguém.

Abrir-o-pala - Fugir correndo.

Acauan - Ave que se alimenta de reptis. Seu canto prenuncia a chuva.

Acabritada - Amulatada - Mestiça de branco e preto.

Aceiro - Terreno capinado ao redor da roçada a ser queimada.

Afincar o pé - Caminhar com energia. Correr.

Afiniz - Doce - Alfenim.

Agarrar ou Garrar - Principiar. Segurar. Tomar um caminho -"Garrei a estrada".

Agregado - Indivíduo que vive parasitariamente em terra alheia.

Agua-de-assucar - Agua com assucar.

Aguado - Diz-se do cavallo que adoece vendo os outros comer ou beber tendo elle fome e sede.

Aguia - Finorio. Intelligente. Astuto.

Aiva - Desorientado. Fóra de si. Misterioso. Esquesito. Sensação indefinivel.

Alentado - Robusto. Forte.

Alimá - Animal cavallar ou muar.

Aluncio - Annuncio.

Amarrano - Cão negaceando a presa. Preando a perdiz.

A'me! - Exclamativo: "homem"!

Amiudá - Diz-se quando os gallos vão diminuindo o canto ao amanhecer.

Amó-que - A modos que... Parece-me...

Amóde - Por causa de...

Andasso - Epidemico.

Antónho Conseiêro - Pantomima extrahida da grande tragedia bahiana em que o governo chacinou sem razão os sertanejos chefiados pelo caipira Antonio Conselheiro.

Anún - Pássaro preto insectivoro, que acompanha os animaes no campo. Há tambem o "anún branco".

Anún - ficar de - Nú.

Apalermado - Boquiaberto. Abobarrado.

Aparêio - Isqueiro, pedra de fogo de fuzil. Apparelho de fogo.

Após-as-aguas - Depois das chuvas. Aguas, tem o sentido de "chuvas".

Aporrinhar - Cacetear. Amolar. "Ser páo". Vem de porrete.

Ara. . . se - O'ra. . . se. . . Vale a pena

Araponga ou Guaraponga - Ave cujo canto imita o retinir do martello na bigorna, entre sons similhantes aos produzidos por lima, ao se afiarem as grandes serras "traçadeiras". Chamam-lhe porisso o "Ferreiro" ou "Serrador": "Gúiraponga", do tupy-guarany.

Araribá - Arvore grande.

Arejar - Estupôr no cavallo que apanha golpe de ar estando suádo.

Arimbá - Vasilha de barro.

Arisca - Mulher facil. Esposa infiel.

Arriba! - Acima! "Arriba o samba"! Sús!

Arrebentado - Fallido. Empobrecido.

Arrendado - (animal) - Descadeirado. Animal de montaria que, forçado pela redia e espora, deixa o trote natural, para marcha, transformando-se assim um "trotão" em "marchador". A definição dada noutros volumes está errada). -Nota do Autor.

Arrotar - Fazer-se valente. Provocar com arrôtos e escarros. Gabolice.

Arrudado - Zangado. Impulsivo. Bravo

Arma-penada - Duende. Assombramento. Espirito que paira sem destino.

Arma do padre Aranha - Celebre assombração que perseguia os tropeiros.

Arvado - Parte em que se encaba a foice.

As-coisa-feito - Feitiçaria. Magia negra. Bruxaria.

Atiçar - Açular. Instigar. Compellir.

Atripeçar - Sentar-se em tripeça.

Atrodia - (istrodia - strudia - trodia - estrodia) - Noutro dia. Ha poucos dias.

Avacalhar-se - Desdizer-se. Retratar-se. Abandonar seus companheiros em politica, sem-vergonhamente, a pretesto de tranzigencia.

Aviamento - Apetrecho para a caçada. Polvora, chumbo e espuletas.

Azeite de carro - Oleo grosso de mamona.

Azeitinho - Oleo de ricino, purgativo.

Azoretado - Irritadiço. Nervoso. Zangado.

Azucrinado - A mesma coisa que "Azoretado". 

 

B

  

Bacaiáu - (Bacalhau). Instrumento de tortura usado noutros tempos contra escravos. Era um mixto de relho e chicote, com quatro tiras de couro no extremo, em logar da tala.

Bacazio - Tiro forte, com grande estampido.

Baderna - Bebedeira acompanhada de desordem.

Bagre - Peixe de couro.

Baguá - Bagoal. Cavallo inteiro. Grande. Volumoso.

Bandeirantes - Desbravadores dos sertões brasileiros eram, geralmente, paulista de tempera jamais igualada, pois sem estradas e bussolas, percorreram todo o Brasil á cata de ouro e pedras preciosas. Levaram os hespanhóes até o Rio da Prata e chegaram a collocar marcos de posse em pleno centro do Perú. Os bandeirantes demarcaram as fronteiras da Patria, dilataram a Nação, e fizeram o Brasil.

Muitos delles só se dedicavam á escravisação dos indios.

Bangué - Padiola em desuzo, podendo transportar uma familia. Tinha quatro cabeçalhos para um animal em cada ponta, sendo carregada suspensa sobre dois animaes.

Banzé - Desordem. Conflicto. "Rôlo".

Banzativo - Preocupado. Pensativo. Triste.

Bacapary - Deliciosa fructa sylvestre, trepadeira, menor que a jaboticaba.

Barba-de-bode - Capim (graminea) de terra exgotada. Marca de terra ruim.

Bardeado - Transportado.

Barróca - Despenhadeiro. Valle. Grota. Sulco profundo na terra.

Batuira - Ave ribeirinha, pernalta, a que tambem chamam "monjolinho" ou "monjoleiro".

Bate-pé - Dansa cabocla. O mesmo que "sapateado", "cateretê ou "catira".

Batê-bocca - Discussão. Altercação.

Batuque - Dansa de pretos. Formam roda de sessenta e mais pessoas, que cantam em côro os ultimos versos do "cantador" e ao som dos tambús, - tubos de madeira com uma pelle numa das extremidades e que produz sons altos com diversas graduações, - requebram e saltam homens e mulheres, dando violentas umbigadas uns contra os outros. Usa-se tambem nessas dansas, o quingengue - semelhante ao tambú, tendo inteiriça a metade do volume. O compasso é marcado também com palmas. - Hoje raramente dansa-se o batuque. Confundem-no com o jongo e este com o samba. . . Batuque é dansa de negros e o samba é dansa de caboclos...

Bão-de-sá - Bem temperada (comida).

Bebudo - beudo - Alcoolisado. Embriagado.

Beicinho - Movimento de pouco caso com os labios. Distensão do labio inferior, prenunciando chôro e desaponto.

Bentinho - Medalha com imagem benzida pelo padre romano.

Berne - Verme que se introduz na pelle das aves e no couro dos animaes.

Bitatá - Fogo fatuo. Do tupy guarany: "Mboytatá" - mboy:cobra, - tatá: fogo. Diabo. Espirito dos não baptisados.

Birro - nome onomatopaico de um passaro que procura para habitação casas e igrejas velhas.

Boava - Portuguez, no sentido pejorativo. Do tupy guarany "Amboabaê" - pessoa estranha.

Bobagem - Tolice.

Bocage Palavriado insultuoso e depravado.

Bocó - Vasilha feita de couro ou crosta do tatú: sem tampo o bocó está sempre aberto, d'ahi chamarem "bocó" ao "bocca-aberta", palerma ou bobo, ou "bobó".

Bocó - Pateta.

Bodoque - Arma rustica de pau em arco, com cordas e malha para arremesso de pedras ou pelote de barro.

Bolantim - Circo de cavallinhos. Artista equestre ou gymnasta.

Bolo - Pancada com a mão, palmatoria ou regua, na palma da mão.

Botá-a-cuié-torta - Intrometter-se onde não é chamado.

Bóto - (a faca) - Metto a faca.

Botá - Pôr. Collocar.

Braba - Bravia - (Sertania) - Inculta, desconhecida.

Branca - Aguardente de canna.

Bragado - Cavallo manchado de branco e zaino.

Brascuiá - Vasculhar.Remexer no fundo do bolso.

Broca - Ferida profunda que só ataca as mãos, não os pés, do cavallo ou burro.

Bruaca - Grandes bolsas de couro crú, para transporte em lombo de animal - Duas bruacas formam o cargueiro.

Bruaca - (pejorativo) - Mulher velha, imprestavel.

Bufar - Dizer-se valente.

Bugio - Macaco barbado. Engenhoca para canna; produz sons na moagem iguaes ao roncar do bugio.

Bugre - Selvicola - Indio do Brasil.

Buquinha - Beijo.

Buré - Sopa do caldo de milho verde.

Burcão - Bulcão - "Cummulus" prenunciadores de chuvas.

Burbuia - Bolhas de ar que sóbem á tona d'água; bolhas de puz. Do tupy-guarany "bubúi": sobre-nadar.

Buta - (comer) - Ser logrado, enganado. Butia, é um vegetal medicinal, muito amargo; o estrangeiro, metido a sabichão, ao ver-lhe o fructo, colhe, elogia-lhe a doçura e. . . mete-lhe os dentes. . . Comeu Buta. . . a fructa é amarga.

Buxa - Logro, velhacamente preparado num negocio ou barganha.

 

 C

  

Cabeça secco - Soldado da policia.

Caboclo - Caipira cor de cuia ou cobre, descendente dos bugres.

Cabra - (bom, valente, sarado, etc.) - Individuo.

Cabra - Mulato, ou mulata.

Cabrita - Mulata nova.

Cabreúva - Madeira de lei tambem chamada Oleo ou balsamo.

Cabórge - Força mysteriosa. Valentia sobrenatural. Força occulta proctetora do valente.

Caça - Animaes selvagens.

Caça foice - Vagabundo. Homem inutil.

Cadorna - Pequena perdiz - codorna.

Caguira - Azar. Caiporismo. Medo.

Cahidas - (mulheres). Apaixonadas.

Caieira - Monte de lenha que, logo depois de aceza, toma o nome de fogueira.

Caiçara - Caboclo ruim, incorreto. Não uzam os caipiras do planalto a expressão caiçara, como denominação de caipira da beira-mar. No tupy guarany, "caaiçá" quer dizer "cerca de ramos a que se recolhem os peixes pescados". "Caí" tambem quer dizer o gesto do macaco tapando o rosto. . . Gesto commum ás crianças, caipiras. . . Caiçára tambem quer dizer trincheira, paliçada, arraial.

Caipira - Por mais que rebusque o "etymo" de "caipira", nada tenho deduzido com firmeza. Caipira seria o aldeão; neste caso encontramos no tupy guarany "Capiabiguára". Caipirismo é acanhamento, gesto de occultar o rosto; neste caso, temos a raiz "caí" que quer dizer: "Gesto do macaco occultando o rosto". "Capipiara", quer dizer o que é do mato. "Capia", de dentro do mato: faz lembrar o "capiáu mineiro. "Caapi", - "trabalhar na terra, lavrar a terra" - "Caapiára", lavrador. E o "caipira" é sempre lavrador. Creio ser este ultimo caso mais acceitavel, pois, "caipira" quer dizer "roceiro", isto é, lavrador.

Sinonimos de "caipira" conheço apenas os seguintes-"Capiáu", em Minas; "quejeiro", em Goyaz; "matuto", Estado do Rio e parte de Minas; "mandy", sul de S. Paulo; guasca ou gaúcho no Rio Grande do Sul; "tabaréo", Districto Federal e alguns outros pontos do paiz; "caiçara", no litoral de S. Paulo e em todo o paiz, "sertanejo".

Caipóra ou capóra - Infeliz - Do tupy-guarany: "Caapó" -mateiro. Pessôa do mato. Duende sertanejo, protector das caças, anda montado num grande porco selvagem.

Calhambóla - V. canhimbóra.

Caimbra - (doença). Camaras.

Cambuquira - Grelos, brotos de aboboreira.

Campear - Procurar.

Cambetear - Andar tropegamente. Empurrado, correr sem querer batendo uma perna na outra, quasi cahindo.

Cambaio - Perna torta. Que puxa por uma perna no andar.

Cambito - Pernil de porco. Peça para apertar correias e arreios.

Camera - Camara Municipal.

Canelleira - Arvore imponentemente alta.

Canhimbóra ou Canhambóra - Escravo fugido, tornado selvagem nas matas. Do tupy-guarany - "cañybó": o que foge muito.

Canfrô - Alcanfora.

Candimba - Lebre.

Comatio - Corda de viola.

Capêta - Diabo - Satanaz.

Capoeira - Mata de foice, ou mata nova nascida depois de derrubada a mata virgem. Do tupy-guarany: "Caa - mata- "poera" - que foi.

Capoeirão - Capoeira grossa quasi como mata-virgem: "capoeira de machado".

Capim - Graminea - Do tupy guarany "Caapim".

Carpir - Cortar cerce o pequeno mato. Tupy-guarany, "Caapi".

Carapina - Tupy-guarany Carpinteiro.

Carona - Peça de couro collocada sob o arreio e sobre os baixeiros. Gozar sem pagar um divertimento.

Carpa - Capinação.

Capanga - Indivíduo assalariado para guarda de alguem, e que obedece quando o pagante manda agredir ou matar. Em Minas, Goyaz e Norte, tambem têm o nome de "jagunço".

Capanga - Pequeno sacco que se traz a tiracollo.

Cardume - (de peixe) - grande quantidade.

Cardósa - Feminino de Cardoso, como Ribeira o é de Ribeiro.

Carreiro - Trilho feito e seguido pelas caças.

Carreira - Rima obrigatoria nas danças caipiras. Ha a carreira do "Sagrado" (toda a rima em ado), ha a de S. João, do Itararé, do Marruá etc.

Carancho Ave de rapina. O maior dos gaviões.

Carreação - Diarrhéa. Desinteria. "Destempero".

Carreador - Caminho improvisado na lavoura para se tirar em carros o producto da lavoura.

Catingueiro - Variedade de capim. Pequeno veado.

Caugdo ou Cáudo - Cágado.

Cavorteiro - Velhaco.

Caraminguás - Miudezas. Dinheiro miúdo achado no fundo da algibeira ou da mala. Tupy guarany: "Carameguá" -caixa ou cesto para miudezas.

Catira ou Cateretê - Dansa de caboclos formando duas linhas de seis ou mais pessoas, dois a dois, frente a frente, com violas. Cantam em dueto os cantadores seus amores ou os factos principaes do bairro e redondezas, respondendo o côro, sapateando nos intervaílos sob compassos marcados a palmas. O som dos pés no chão e as palmas formam variada musica.

Casaca de ferro - Empregados encasacados de circos de cavallinhos. Serventes encasacados.

Cassununga - Pequena e bravíssima vespa.

Catirina - Prostituta.

Cavado - (amigo, dinheiro). Arranjado. Conquistado.

Cerne - Amago da madeira. Pau que dentro d'agua não apodrece. Estar no cerne (homem) resistir o tempo; não envelhecer.

Cêrto de bocca - Cavallo adestrado e docil ás redeas.

Cerrado ou cerradão - Mata rachitica e escassa em terras que absolutamente nada produzem; nem capim de bôa qualidade.

Cerigote - Arreio semelhante ao lombilho.

Ceriema - Ave pernalta dos campos.

Cerelepe - Espécie de esquilo. Canxinguelê, do Norte.

Chavié ou xavi - Desinchabido - Desapontado.

Chan-chan - Ave trepadora que com seu canto avisa a approximação de alguem, avisando o caipira. É nome onomatopaico. "Cão-cão", do Norte e "Can-can", dos bugres.

Chabó - Andorinha grande de cabeça chata. Taperá-guassú.

Chapadão - Crapada - Rechã - Planalto. Araxá.

Charrôa - Remate de uma obra de couro trançado.

Chimbica - Jogo de cartas tambem chamado manilha.

Chimburé - Peixe de escamas, d'agua doce.

Chico-lerê - Passaro patéta. . . Paulo-pires; jucurêrê.

Chichica - Escremento. Sujidade.

Chiqueirador - Grosso relho com cabo de madeira em forma de chicote.

Chimbéva (homem). Nariz chato, do tupy guarany: "Ti": nariz; "péva": chato.

Chilenas - Esporas grandes.

Chilipe - Carcere.

Chilique - Desmaio.

Choren - Cão sarnento. Gafo.

Chuva - Bebado - Alcoolico.

Chuãã - Cesto ponteagudo para transporte de fructas. É tupy guarany.

Chucro - Bebado - Cavallo não domado ou amansado.

Chupim - Passaro preto menor que o vira-bosta. Come os óvos do tico-tico e põe os seus no lugar, criando o tico-tico os filhos do chupim, apesar da enorme differença. O tico- tico é rajado e o chupim é preto.

Chupim - Marido de professora quando sustentado por ella.

Chumbeado - Bebado.

Cobre - Dinheiro mesmo em papel moeda.

Cócre - Pancada com os "nós dos dedos" na cabeça, tendo a mão fechada.

Cócre de - Cocoras. Sentado sobre os proprios calcanhares

Cogote - Toutiço, cangote.

Coivara - Galhos e ramos que resistiram o fogo das queimadas, ficando apenas com as cascas queimadas ou chamuscadas. Geralmente os autores têm confundido "coivara" com "encoivarar", que quer dizer reunir as "coivaras" para queimar, afim de "destrancar" a roça.

Colondria - de ladrão - Quadrilha de ladrões.

Como que - Extremamente.

Comeu-chão - Venceu grande distancia, em marcha.

Consoante - De accordo. Conforme.

Convencido - Soberbo. Emproado. Vaidoso.

Coró - Verme. Bicho de pau pôdre.

Coróte - Ancorote. Vaso de madeira em fórma de pequeno barril portatil a tiracolo.

Corymbatá Peixe de escama, papa-terra.

Corpo. - Cadaver.

Corruira - Passarinho caseiro insectivoro. Carriça - Cambaxirra, do Norte. Ha a "corruira d'agua" que faz seus ninhos labyrinthicos de milhares de pausinhos, impenetrável para as cobras e mais inimigos.

Criozena - Petroleo, Kerozene.

Cren-dós-padre - Creio em Deus, Pae.

Crioulinhos (Em desuzo) - Pretinhos, filhos de escravos.

Cria - (estar com) - Filho novo de animal cavallar, caprino, ovino ou bovino.

Curupira - (No tupy guarany não ha r forte). Duende selvagem. do Norte, pouco conhecida é a sua lenda em S. Paulo.

Cuzarruim ou Coiza-ruim - Satanaz - Diabo.

Curió - Passaro canoro dos pantanaes.

Cuja - A metade de um porungo ou cabaça.

Cuitélo - Beija-flor. Colibry.

Cuipeva - Colhér.

Cuipé - Pá de madeira para o forno.

Cuéra - Decidido. Valente. Bom. No tupy-guarany quer dizer convalescente.

Cuiára - Habil no jogo. Velhaco. Espertalhão. Rato silvestre.

Cumieira - Parte mais elevada da casa.

Currução - Molestia nervosa. Deita-se a victima, sem dores, e não ha o que a faça deixar o leito. Come se lhe dão comida, sinão, pouco se incomoda.Há moléstia semelhante que na França chamam "corru".

Cumerações - Calculos.

Curtindo - Suportando, triste, uma paixão ou ciume.

Curiango - Ave nocturna.

Cururú - Dansa em que tomam parte os poetas sertanejos, formando roda e cantando cada um por sua vez, atirando os seus desafios mutuos. Os instrumentos usados são: a "puyta", (Instrumento africano trazido pelos escravos), rouquenha, em forma de um pequeno barril tendo o fundo de couro de cabra com uma varinha ao centro; a trepidação produzida com um panno molhado empalmado pelo executante, produz o som, um verdadeiro ronco; o "réqueréque" que é um gommo de bambú, de meio metro, dentado, em que o tocador passa compassadamente uma palheta do mesmo vegetal, secco; o "pandeiro", os "adufes", e a celebre "viola". Os "cururueiros" cantam sem amostras de cansaço, desde o anoitecer até o amanhecer.

É uma dansa mixta do africano e do bugre.

 

D

  

Dante - Antigamente. N'outros tempos.

Dar-volta - Exterminar. Acabar. Matar.

Debruços - Em decubito dorsal.

Decumê - Comida aos porcos. Comida.

Decuada - Extracto da cinza para aproveitamento da potassa.

De-já-hoje-já-hoje - Ainda pouco. Agora pouco. A poucos momentos.

De-mão - Auxilio gratuito no serviço.

Desgranhado - Desgraçado. "Maldito"!

Desguaritado - Extraviado. Desorientado. Sem guarida.

Despique - Acinte. Disputa. Represalia. Desafio (de viola) -Vingança.

Desbronque - Grande desgraça. Mortandade em tiroteio. Depindurar - Pendurar.

Depindura - Na imminencia de uma queda ou de empobrecimento.

Déstão - Dez tostões.

Destrocido - Agil. Desembaraçado. Direito.

Descanhotar - Desnocar - Destroncar. Desengonçar. Desarticular.

Diá... - A crendice faz com que o caipira não pronuncie ou nunca complete a palavra diabo. Ou diz: "Diá - Dianho

Tinhoso - Capeta - Malino - Bicho - Pé de pato - Bóde preto - Tentação - Cuizarruim - Satanais - Cifé", etc.

Diagonal - Tecido de algodão, preto, em linhas diagonaes.

Dór - Dó.

Dourado - Peixe de escamas, d'agua doce - É o Piraju dos indios - "pira" peixe - "jú" (ba) amarello.

Douradilho - Cavallo meio dourado.

Duas e meia bôa - Sempre que o caipira se refira a distancia, dirá legua quando em numero inteiro; havendo o quebrado de meia legua, não pronuncia elle a palavra legua; dirá: 2 1/2, "5 1/2 puxada" - "3 1/2 bôa", etc.

Dunga - Corresponde ao "Dégas!" Quer dizer, com emphase, "cá eu!" "Quem venceu? O Dégas! Sou mesmo um "Dunga!".

 

 E

  

! - Exclamação uzada pelas mulheres, quando muito admiram. Montoya registra no seu livro: "Lingua Guarany" essa exclamação só uzada pelas mulheres.

Eito (de tempo) - Extensão. Pedaço. Parte da lavoura entregue ao capinador.

É mão - Occasiáo (de se ir embora). "É mão de trabaiá".

Embira - Resistente fibra da madeira chamada jangada.

Embira - (Estar na) Preso. Atado. Coberto de dividas.

Encamboiado - Ligado dois a dois. Encomboiados.

Encrenca - Embrulho. Desordem. Atrapalhada. Pendencia.

Ençampar - Enganar. "Çampa", quer dizer mentira.

Encambitar (atraz delle) - Correr em perseguição de alguem.

Enfiar a agua no espeto - Vadiar.

Engrovinhada - Paralitica. Engrossamento de articulações. Mirrada.

Entojado - Cheio de si. Vaidoso. Emproado.

E... puca - Exclamação de gabolice.

Erpe - Expressão de gabóla - Venci! ê cabra erpe na lucta!"

Escórva - Exercicio. Experiencia de forças dos gallos de briga.

Escorvar - (A espingarda). Fazer explodir a escórva para enxugar o "ouvido" da arma. Exercitar-se para experimentar as forças.

Escopa - Jogo de cartas introduzido pelo italiano, no sul do Brasil.

Escorar - (um homem). Enfrentar o inimigo, fazendo-o parar.

Escóra - Pé direito. Apoio para que uma parede ou objecto não caia.

Esculpido - Muito parecido.

Espera - O mesmo que "ésse". Logar onde se espera a caça. Pau em que se engancha o cabéçalbo de carro.

Espigão - Planalto.

Espigado - Rapaz de corpo direito. Desenvolto.

Esparrela - Armadilha para passaros composta de lacinhos de cedenho sobre uma tabua.

Esquentado - Impulsivo.

Esquesito - Fóra do natural. Não commum.

Esquisitice - Sensação extranha. Excentricidade.

Ésse - Travessa no boccal do punhal ou faca, com a fornia da letra S.

Essa ua - Expressão muito uzada: "Este um" - "aquelle um", em lugar de este ou aquelle.

Estaqueô - Parou bruscamente.

Estanhados (olhos) - Fixos.

Estirão - Trecho de rio, em recta.

Estaca - Pau fincado na parede á guiza de cabide. Pau fincado na lavoura para marco de lugar em que tem de ser plantado o café ou a vinha.

Estiada - Paragem momentanea da chuva no tempo das aguas, prosseguindo logo a chuva.

Estranja - Estrangeiro.

Estaqueá - Parar bruscamente. Cahir morto.

Estrupicio - Grande quantidade. Asnice.

Esturdio - Esquisito. Fóra do commum.

Esturdinario - Extraordinario.

E-vê - Parece-me. Parecido. Similhante.

Envidado - Enganado. "Não sou eu; o sr. se envidou".

  

F

  

Facho - Vegetaes seccos facilmente inflammaveis, nas queimadas.

Famia - Filho ou filha.

Far-má - Não faz mal. Deixam de pronunciar o não.

Fazenda - Grande propriedade agricola.

Fazendeiro - O dono da "fazenda".

Festa do Divino - a festa em honra do Espirito Santo, que se reveste de grande brilho, na cidade de Tietê. Os caboclos têm como obrigação cumprir a promessa de seus antepassados, que desciam em numero de sessenta ou mais, nos grandes batelões, pelo rio Tietê, e subiam esmolando entre o povo ribeirinho, durante vinte e mais dias. As casas, na passagem das canôas, são enfeitadas com palmas e arbustos, sendo offerecidas lautas mesas aos canoeiros e ao povo do bairro, que afflue nessas occasiões. Onde pousa o Divino e toda a comitiva, organisam-se interessantissimas diversões, reunindo-se no sitio mais de mil pessôas.

Será esta festa uma reminiscencia da partida dos bandeirantes?

Feiticeiro - Mago. Bruxo.

Fiapico