Viola Tropeira

 

ELOMAR (LETRAS )

"(...)Pois assim é Elomar Figueira de Melo: um princípe da caatinga, que o mantém desidratado como um couro bem curtido, em seus 34 anos de vida e muitos séculos de cultura musical, nisso que suas composições são uma sábia mistura do romanceiro medieval, tal como era praticado pelos reis-cavalheiros e menestréis errantes e que culminou na época de Elizabeth, da Inglaterra; e do cancioneiro do Nordeste, com suas toadas em terças plangentes e suas canções de cordel, que trazem logo à mente os brancos e planos caminhos desolados do sertão, no fim extremo dos quais reponta de repente um cego cantador com os olhos comidos de glaucoma e guiado por um menino - anjo, a cantar façanhas de antigos cangaceiros ou "causos" escabrosos de paixões espúrias sob o sol assassino do agreste.(...) É...quem sabe não vai ser lá, no barato das galáxias e da música de Elomar, que eu vou acabar amarrando o meu bode definitivo e ficar curtindo uma de pastor de estrelas..."

Vinícius de Moraes
abril de 73.

 

"Alas qui foi um truvejo. in certa altura da labuta já quaji disurino. Tarei me apeguei cum Deus e cum o dijidoro dum bando de malungo muntemo o mundengo, fumo cunseguino e já cum água na capa da cela cheguemi lá. Nestes termos Zé Nandú, Zé Krau ou Quilimero resumiria o falatório, que se segue. Vendo os janeiros entrando, as canções chegando e sumindo e o encordoamento da goela cansando, me aviei em fazer logo um disco ou dois ou mais. E como fazer isto? Fizeram os gravadoras lá pelas bandas do Sul, muito longe da catinga, cidade grande barulhenta, apertucho muito regulamento elevados documentos na capanga, comida ruim... Não vou não. Resolvo, vou. E os quadros manchetes catidianos registrados pela imprensa? Vou ou não, me difini. Arranjo um "nagra" e vou gravar isto é lá em casa no Rio do Gavião junto dos bodes no meio do chigueiro. Não precisa estúdio; conversa de vaqueiro, cantinga de grilo, budejo de pai-de-chiqueiro se entrar na fita fica, faz parte. E mais cadê o nagra? Nessa enrola um ano se foi. Daí é que dando um pulo a Salvador para u'a cantoria ligeira de fim de ano, e sou que eu desse por fé. Carlos Pita, Alcivando, João Américo, Dércio Marques, Xangai, Fábio, Limonge, Gildásio e Vicente (um bando) já tinham armado a arapuca. Foi só puchar o cipó e de repente me vi enredado na trama de fios do estúdio do Seminário de Música da Universidade da Bahia, o que nos foi concedido pelo seu diretor o Prof. Ernest Wildmer ao qual nesta oportunidade faço meus agradecimentos.

Foram longas horas de studio; trabalho pesado, esgotante e o pior, o que dá raiva, são as tais fitas em rolo, é um rôlo, é um rôlo! Quando a gente pensa que "matou" 4 ou 5 canções, Alcivando e João, bradam: grava tudo de enovo (um tal de decapo). Que foi lá? Fitas defeituosas, defeito de fabricação isto é demais, custou muito, não vou gravar essa mundiça mais não. Grava, não grava, enfim ficaram prontos os rôlos. Rôlo brabo foi entrar num avião, cortar o céu e descer naquela galáxia em vias de explosão (S.Paulo)

Virgelino! Ali com o apoio do Sr. Marcus Pereira, conseguiu contrar a prensagem na fábrica de discos Copacabana. Por 8 dias no (S.Paulo) andei naqueles subterrâneos, gargantas e desfiladeiros de paredes verticais. Um mundo perdido carcumido por ventos maleitosos, mortíferas fumaças "estroncios letais", milhões de seres palidos macrobios, uma guerra telúrica. Geraldo um amigo catingueiro que ora sujegado naquele habitat e já portanto afeito ao elemento envenenado foi meu guia enquanto eu errava, me lembrnado do Rei Davi, na imensidão daqueles vales onde por vezes eu vi passar de largo a sombra da morte. E parados na sala grande do museu eu vi também os Retirantes de Portinari. No meio d'ua travessia, boquinha-de-noite, sinaleira fechada, uma aflição imensa com medo de não dar tempo; de salto armado e olhos semicerrados a grande alcatéia de monstros prestes desfechar o salto e esfarelar a gente. No meio da tribulação me lembrei de Remundo, no esfregas dos olhos vi no fim do mundo no êrmo as ruas desoladas e dos casarões entravam e saiam ratos, cobras, morcêgos e corujões... como disseram os profetas hebraicos.

Dai, veio o rôlo derradeiro, foi um tumba, a capa, dos discos. Foi com menos sofrimento já estavaa na Bahia. Com um grande lãinna pesada a Planus Propaganda meou e finalizou a arte. Um bando de malungo, realmente, mil vaquêro internado nos serrado de jurama campiano trem alevantado.

Nunca pretendi fazer disco adereçado de altos requintes tecnicos tão somente a pura e simples documentação de meu trabalho sem que turbe o espirito das coisas e do lugar donde ele saiu. Este disco foi feito a facão, no Nordeste, com o digitoro de muitos amigos, o sacrificio meu e de minha mulher e sobre todas as coisas, com o consetimento de Deus.

Estes cantares e estes falares são lembranças que a catinga agradecida manda para o amigo Henfil"

Elomar - Apresentação de Na Quadrada das Águas Perdidas

 

bullet 

"Num certo dia do saudoso 91, pensamos em escolher um bom punhado de canções dentre as óperas que compomos e as que ainda estão sendo partituradas. Seriam então gravadas em disco nas vozes qualificadas de cantores convidados, líricos e populares, com orquestra e tudo, conforme as partituras originais. Mas, é que iria ficar tão bonito, tão caro, tão difícil..., tão duro, tão sem bufunfa que estou e portanto, tão impossível pelo tão duro que estou que até passei a admitir decisivamente, que se foram para sempre e para nunca mais a quadra das vacas gordas. Povoadas de bens na grande fartura de valores que sustentavam a inteireza do cimento que por muito tempo estruturou a sociedade dos homens, ora apodrecia... Eh! dêxa pra lá. pois diante desta verdade e de outras saudades, nem dá pra chorar!

Fomos então á Bahia Grande ou melhor, ao Baião, segundo o saudoso menestrel e Rei deste, eu e o querido João Omar. Ali nos studios do cavaleiro Cacalieiri eu e ele, vozes e violões, se me nos viramos em baixos barítonos, tenores, contraltos e sopranos e gravamos estas árias do sertão com a precípua e quase que única finalidade de levar até aos malungos que acompanham nossa peregrinação, uma pequena amostra de nossa música mais nova. E mesmo porque tenho muito me preocupado com o fato de que hoje, só consegui registrar em disco cerca de 15 por cento da música composta. Pelo que, só ficam os cúmplices privados de ouvir o grosso de um trabalho terrivelmente pobre-paupérrimodestituído de toda e qualquer inhaca de coisa de gringo, como também me aflijo e na maior das solicitudes desmanchando o tempo e assassinado as horas e se me virando pra vender um pedaço da lua de mais ou menos um quilo e meio que caiu bem no terreiro de casa. Todo esse rôlo objetiva em 93, a gravação maciça de pelo menos duas óperas: A CARTA e O RETIRANTE, cinco ANTÍFONAS e dois GALOPES E ESTRADEIROS. Todo este rôlo redunda também em pelo menos nove longuepleis. Me arreceba, serão muitas arrôbas de pedaços de celenitas que terei de achar caídos no terreiro daqui de casa.

E, para que não fique pairando no ar, cara a cara com cada récem aterrissada ária, e ainda sustentado o velho estilo, uma a uma ao ruflar das asas e a medida em que vão pousando em vossos ouvidos, vo-las apresentemos: Ei-las:"

Introdução assinada por Elomar, contida no encarte do Cd Árias Sertânicas

 

A Meu Deus um Canto Novo(Elomar)

Bem de longe na grande viagem /Sobrecarregado paro a descansar,
emergi de paragens ciganas/pelas mãos de Elmana, santas como a luz
e em silêncio contemplo, então/mais nada a revelar
fadigado e farto de clamar às pedras/de ensinar justiça ao mundo pecador
oh lua nova quem me dera/eu me encontrar com ela
no pispei de tudo/na quadra perdida
na manhã da estrada/e começar tudo de nôvo
topei in certa altura da jornada/com um qui nem tinha pernas para andar
comoveu-me em grande compaixão/voltano o olhar para os céus
recomendou-me ao Deus/Senhor de todos nós rogando
nada me faltar/resfriando o amor a fé e a caridade
vejo o semelhante entrar em confusão/oh lua nova quem me dera
eu me encontrar com ela/no pispei de tudo
na quadra perdida/na manhã da estrada
e começar tudo de nôvo/bôas novas de plena alegria
passaram dois dias da ressurreição/refulgida uma beleza estranha
que emergiu da entranha/das plagas azuis
num esplendor de glória/avistaram u'a grande luz
fadigado e farto de clamar às pedras/de propor justiça ao mundo pecador
vô prossiguino istrada a fora/rumo à istrêla canora
e ao Senhor das Searas a Jesus eu lôvo/levam os quatro ventos
ao meu Deus um canto nôvo

Arrumação(Elomar)


Josefina sai cá fora e vem vê/olha os fôrro ramiado vai chovê
vai trimina riduzi toda a criação/das banda da lá do ri Gavião
chiquêra prá cá já ronca a truvão/futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó/Mãe Purdença inda num culheu o ai
o ai rôxo essa lavora tardâ/diligença pega panicum balai
vai cum tua irmã, vai num pulo só/vai colhê o ái, ái ds tua avó
futuca a tuia, pega o catadô/vamo plantá feijão no pó
luã nova sussarana vai passá/"sêda branca" na passada ela levô
ponta d' unha lua fina risca no céu/a onça prisunha a cara de réu
o pai do chiquerô a gata comeu/foi um truvejo c'ua zagaia só
foi tanto sangue de dá dó/os ciganos já subiro bêra ri
é só danos todo ano nunca vi/paciência já num guento a pirsiguição
já sô um caco véi nesse meu sertão/tudo qui juntei foi só prá ladrão
futuca a tuia, pega o catadô/vamo plantá feijão no pó

 

Cantiga de Amigo(Elomar)

Lá na casa dos Carneiros/Onde os violeiros vão cantar louvando você
Em cantiga de amigo/Cantando comigo somente porque você é
Minha amiga, mulher/Lua nova do céu que já não me quer
Dezessete é minha conta/Vem amiga e conta uma coisa linda pra mim
Conta os fios dos teus cabelos/Sonhos e anelos
Conta-me se o amor não tem fim/Madre amiga é ruim
Me mentiu jurando amor que não tem fim/Lá na casa dos Carneiros
Sete candeeiros iluminam a sala de amor/Sete violas em clamores, sete cantadores
São sete tiranas de amor para a amiga/Em flor
Que partiu e até hoje não voltou/Dezessete é minha conta
Vem amiga e conta/Uma coisa linda pra mim
Pois na casa dos Carneiros/Violas e violeiros
Só vivem clamando assim/Madre amiga é ruim
Me mentiu jurando amor que não tem

 

Cantiga do Boi Incantado - Elomar

Ê Ê Ê Ê Ê Ê ... boi incantado e aruá/Ê boi quem havera de pegá

Na mia vida de vaquêro vagabundo/já nem dô conta dos pirigo qui infrentei
apois aqui das nação de gado qui ai no mundo/num tem um só boi qui num peguei

Ê Ê Ê Ê Ê Ê ... boi incantado e aruá...

Eu vim de longe, bem pra lá daquela serra/qui fica adonde as vista num pode alcançar
ricumendado dos vaquêro de mia terra/pra nessas banda eles nóis representar
alas qui viemo in dois eu e mais Ventania/o mais famado dos cavalo do lugá

Meu sabaruno rei do largo e do grotão/vê si num isquece da premessa qui nóis feiz
naquela quadra de terra, laço e moirão/na luz da tarde os olhos dela e meu cantá
a mais bunita de brumado ao pancadão/juremo a ela viu ti pegá boi aruá

Ê Ê Ê Ê ... boi incantado e aruá...

De indubrasil nerol' xuite guadimá/moura junquêro pintado nuve e alvação
junquêro giz pé duro landrêis malabá/pintado laranjo rajado lubião
boi de gabarro banana môcho armado/de curralêro ao levantado barbatão

De todos boi qui ai no mundo já peguei/afóra lá ele qui tem parte cum cão
o tal boi bufa cum este nunca labutei/e o incantado qui distinemo a pegá
Pra nóis levá pras terra daquela donzela/juremo a ela viu te levá boi aruá (bis)

Ê Ê Ê Ê Ê Ê ... boi incantado e aruá...

 

Clariô - Elomar


Ai clariô, ai clariá/é a claridade / da barra do dia / que vai chegá

Ai clariô, ai ai clariô 2X

Purriba do lagêdo o luá chegô/ja cá na Cabicêra a função pispiô
amiã cedo a lua já entrô/eu vô passá a noite intêra
cantano clariô/E eu qui vim só
só pra vê meu amô/sei que vô ficá só
pois ela num chegô/Ai clariô, ai ai clariô

As baronêsa já abriu as fulô/nos catre e nas marquêsa as figura sentô
a pé de bode abriu asa e cantô/nas baxa e nas verêda seu canto raiô

E eu qui vim só/só pra vê meu amô
sei que vô ficá só/pois ela num chegô

Ai clariô, ai ai clariô

 

Curvas do Rio - Elomar


Vô corrê trecho / Vô percurá u'a terra preu pudê trabaiá
Pra vê se dêxo / essa minha pobre terra véia discansá
Foi na Monarca / a primeira dirrubada
Dêrna d'intão / é sol e fogo é tái d'inxada

Me ispera, assunta bem / inté a boca das água qui vem
Num chora, conforma muié / eu volto se assim deus quisé

Tá um aperto / mais qui tempão de Deus no sertão catinguêro
Vô dea um fora / só dano um pulo agora in Son Palo Triâng' Minêro
É duro moço / esse mosquêro na cozinha
A corda pura / e a cuia sem um grão de farinha

A bença, afiloteus / te dêxo intregue nas guarda de Deus
Nocênça, ai sôdade viu / Pai volta prás curva do rio

Ah mais cê veja / num me resta mais creto prac um furnecimento
Só eu caino / nas mãos do véi Brolino mêrmo a deis pur cento
É duro moço / retirá prum trecho alei
C'ua pele no osso e as alma nos bolso do véi

Me ispera, assunta viu / sô imbuzêro nas bêra do rio
Conforma, num chora mulé / eu volto se assim Deus quisé
Num dêxa o rancho vazio / eu volto prás curva do rio

 

 

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