Viola Tropeira
A Origem Caipira

O caipira por Vanda Catarina P. Donadio
Caipira
é uma denominação tipicamente paulista. Nascida da primeira miscigenação entre o
branco e o índio. "Kaai 'pira" na língua indígena significa, o que vive
afastado, ("Kaa"-mato ) ( "Pir" corta mata ) e ( "pira"- peixe). Também o
cateretê, inicialmente uma dança religiosa indígena, na qual os Índios batiam
palmas, seguindo o ritmo da batida dos pés, deu origem a "catira". A catira
passou a ser um costume de caboclos, antigamente chamados de "cabolocos". Com o
avanço dos brancos em direção ao Mato Grosso e Paraná a cultura caipira foi
junto, levada principalmente pelos tropeiros. Hoje o termo "Caipira"
generalizou-se sendo para o citadino uma figura estereotipada. Mas esse ser
escorregadio e desconfiado por natureza, resiste às imposições vindas de fora.
Tem uma espécie de cultura independente, como a dos Índios. Infelizmente alguns
intelectuais passaram de modo errôneo a imagem do caipira. Hoje as festas
"caipiras" que se encontram nas cidades e nas escolas não passam de caricaturas
de uma realidade maior. Foi criada uma deturpação do que o povo brasileiro
possui de mais profundo e encantador em suas raízes. "A primeira mistura", a
pedra fundamental. O falar errado do caipira não é proposital. Permanecendo ele
afastado das cidades, mantém no seu dialeto, muito conhecimento, que o homem da
cidade já perdeu, com sua prosperidade aparente. O caipira conhece as horas
apenas olhando para o céu e vendo a posição do sol. Sabe se no dia seguinte virá
chuva ou não, pois conhece a fundo o mundo natural. Tem um chá para cada doença,
uma simpatia para cada tristeza... Para o citadino o caipira virou motivo de
divertimento, quando deveria ser o exemplo de amor à terra. Do antepassado Índio
ele herdou a familiaridade com a mata, o faro na caça, a arte das ervas, o
encantamento das lendas. Do branco a língua , costumes, crenças e a viola, que
acabou sendo um dos símbolos de sua resistência pacífica. Muitos são os ritmos
executados na viola, da valsa ao cateretê. Temos Cateretê baião; Chula polca;
Toada de reis: Cateretê- batuque, Landú, Toada; Pagode, etc. Apesar de parecer
um homem rústico, de evolução lenta, nas suas mãos calejadas ,ele mantém o
equilíbrio e a poesia da fusão duas etnias. E traduz seu sentimento acompanhado
da viola, companheira do peito, onde canta suas esperanças, tristezas e as
belezas do nosso país. A música rural, criativa , contrapõe-se aos modismos
vindos do exterior. Ainda é uma forma resistente de brasilidade, feita por um do
povo que conhece muito o chão do nosso país. Hoje estão querendo fazer uma fusão
cultural, a do "caipira" com o "country" americano. O que se vê, é gente
fantasiada de "cowboy", mas que não sabe sequer em qual fase da lua
estamos...Para homenagear o verdadeiro caipira paulista aqui temos uma música
bem conhecida:, cantada pelo jovem violeiro Rodrigo Matos, composição de Cacique
e Carreirinho;
Pescador e Catireiro ( Cacique e Pajé)
Comprei uma mata virgem /Do coronel Bento Lira
Fiz um rancho de barrote /Amarrei com cipó cambira
Fiz na beira da lagoa /Só pra pescar traíra
Eu não me incomodo que me chamem de caipira /No lugar que índio canta
Muita gente admira /Canoa fiz de paineira
Varejão de guaruvira /A poita pesa uma arroba
Dois remos de sucupira /Se jogo a tarrafa n' água
Sozinho um homem não tira /Capivara é bicho arisco quando cai
Na minha mira /Puxo o arco e jogo a flecha
Lá no barranco revira /Eu sou grande pescador
também gosto de um catira/Quando eu entro num pagode
não tem quem não se admira /No repique da viola
Contente o povo delira /Se a tristeza está na festa eu chego
Ela se retira /Bato palma e bato o pé
Até as moça suspira /Muita gente não conhece
O canto da corruíra /Nem o sabe o gosto que tem
A pinga com sucupira /Morando lá na cidade
Não se come cambuquira /É por isso que eu gosto do sistema do caipira
Pode até ficar de fogo /Ele não conta mentira
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Vanda Catarina P. Donadio é escritora infanto-juvenil, professora de idiomas e divulgadora cultura
Catequistas se moviam
pra provar o seu amor
aos nativos que temiam
o estranho invasor
mas ouvindo o som mavioso
de uma viola a soluçar
o selvagem, cauteloso,
espreitava, a escutar.
(Assim Nasceu o Cururu, Cap. Furtado( de Tiete sp. Sobrinho de Cornélio Pires e
Laureano, de Sorocaba,hoje Votorantim. Compositor da famosa,Marvada Pinga)
O cururu nasceu, pois, dos cantos religiosos marcados por batidas de pé. Das festas ao redor dos oratórios ganhou os terreiros, nos acontecimentos sociais das fazendas e vilas. Nos anos 30, Mário de Andrade viajou pelo interior paulista, nas suas pesquisas, e observou que no médio-Tietê cururu era desafio improvisado, uma espécie de "combate poético" entre violeiros-cantadores, iniciado com saudações aos santos. Dessa forma ele ainda resiste em cidades como Piracicaba, Sorocaba, Tietê, Conchas e Itapetininga a chamada região cururueira do estado. Entre os cururueiros mais famosos do disco estão os irmãos DIVINO chamados reis do cururu dupla de SOROCABA. Vieira e Vieirinha, de Itajobi, SP (o segundo, morto em 1990), que brilharam nos anos 50.
O catira ou cateretê surgiu de uma dança indígena, o caateretê, também adotada nos cultos católicos dos primórdios da colonização. As bases mais sólidas de seu reino se estabeleceram em São Paulo e Minas Gerais. Com solos de viola e coro, acompanhados de sapateado e palmeado, ele começa com uma moda de viola, entremeada por solos, e evolui para uma coreografia simples mas bastante rítmica. O clímax, no final, é o "recortado", com viola, coro, palmeados, sapateados e muita animação. O catira é o coração de festas populares como as Folias de Reis e as de São Gonçalo, . Entre grandes catireiros estão VIEIRA E VIEIRINHA chamados merecidamente de os reis da catira , Tonico e Tinoco de São Manuel SP (o primeiro, morto em 1994), que registraram incontáveis sucessos nos anos 40 e 50. Atualmente, entre os novos-caipiras, o mineiro Chico Lobo é violeiro-cantador que domina essa velha arte.
O fandango, por sua vez, nasceu como dança vigorosa de tropeiros que o aprenderam no extremo sul do país, com seus colegas uruguaios. Sofreu modificações nas diversas regiões onde chegou e ainda é cultivado em alguns núcleos por todo o país, como no litoral paranaense. Resultante da mistura da música dos brancos da roça com a dos negros escravos, o calango firmou-se especialmente no Rio de Janeiro rural e em Minas Gerais. Martinho da Vila, fluminense de Duas Barras, compôs e gravou alguns bons calangos, puxados na viola e com instrumentos percussivos.
A moda de viola se destaca
Entre tantos ritmos e estilos formados a partir das toadas, cantigas, viras,
canas-verdes, valsinhas e modinhas, trazidos pelos europeus, a moda de viola se
transformou na melhor expressão da música caipira. Com uma estrutura que permite
solos de viola e longos versos intercalados por refrões, com letras
quilométricas contando fatos históricos e acontecimentos marcantes da vida das
comunidades, ela ganhou vida independente do catira. E seduziu grandes
compositores, como os paulistas Teddy Vieira (de Buri) e Lourival dos Santos (de
Guaratinguetá), já falecidos, bastante ativos entre os anos 50 e 60. Atualmente,
os mineiros Zé Mulato e Cassiano estão entre os bons compositores e cantadores
de modas de viola.
À medida que o país se urbanizou e precisou da mão de obra barata do povo do interior, levas de artistas caipiras e nordestinos também chegaram a São Paulo e ao Rio de Janeiro para disputar seus palcos e estúdios. Assim, emboladas e cocos se misturaram a maxixes, guarânias, rasqueados, chamamés, boleros, baladas e rancheiras e a tudo o que se ouvia no rádio nos anos 50 e nas fronteiras do país. Todas essas matrizes sonoras formaram, com os gêneros caipiras tradicionais, o que passou a ser sacralizado, na terminologia do mercado fonográfico, como música "sertaneja". Mais sons entrariam nesse caldeirão: a partir dos anos 60, o rock e a MPB dos festivais, e, nos 80, a country music americana.
Entre os marcos das diversas fases da música que nasceu na roça e hoje, bastante modificada, embala multidões de norte a sul do país, podemos destacar as primeiras gravações de modas de viola e de outros gêneros caipiras por violeiros-cantadores do interior paulista, em 1929 na série de discos produzida por Cornélio Pires para a Columbia. Na década de 30, vieram os sucessos de João Pacífico e Raul Torres, de Alvarenga e Ranchinho. Já Tonico e Tinoco pontificaram a partir dos anos 40.
Vários estilos no saco
O apogeu dos caipiras foi nos 50: levas de duplas, especialmente do interior de
São Paulo, tiveram espaço nobre nas gravadoras e emissoras de rádio. O filão
caipira abrigou, nessa época, as guarânias de Cascatinha e Inhana e as
rancheiras mexicanas de Pedro Bento e Zé da Estrada. Entre 60 e 70, o
aparecimento de Sérgio Reis e Renato Teixeira o primeiro saído da Jovem
Guarda, o outro dos festivais da TV Record agitou o mundo sertanejo.
Exatamente em 1960 um genial violeiro do norte de Minas, Tião Carreiro,
inventava o pagode caipira, mistura de samba, coco e calango de roda (na
definição de outro tocador e conterrâneo, Téo Azevedo).
Nos anos 80 surgiram a dupla mineira Pena Branca e Xavantinho, adequando sucessos da MPB à linguagem das violas, e Almir Sater, violeiro sofisticado, que passeava entre as modas de viola e os blues. A guinada para a country music, com a adoção de instrumentos eletrificados e a formação de grandes bandas deu-se a partir do mega-sucesso de Chitãozinho e Xororó, em 1982. A eles, seguiram-se outras duplas de sucesso, cada vez mais direcionadas para o romatismo pop herdado da jovem guarda, como Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano.
Os anos 90 marcaram a convivência de dois segmentos musicais originários dos gêneros rurais: o dos mencionados sertanejos-pop, voltado para grandes mercados internacionais, e o dos novos-caipiras - músicos saídos das universidades, dispostos a retrabalhar a música "raiz". Estes criaram um circuito de gravadoras independentes e apresentações em teatros, entre São Paulo e Belo Horizonte, já se irradiando até o Rio de Janeiro. Os detonadores desse movimento foram Renato Teixeira e Almir Sater. Entre os nomes mais expressivos dessa nova geração de instrumentistas-compositores estão os mineiros Roberto Corrêa, Ivan Vilela, Pereira da Viola e Chico Lobo, e o paulista Miltinho Edilberto.
A Viola
A viola é um instrumento bem menor que o violão, com a cintura mais acentuada, e encordoado de maneira diferente. Ela possui dez cordas, agrupadas duas a duas, sendo algumas de aço e outras, revestidas de metal. A disposição das cordas, começando de baixo para cima é: os dois primeiros pares afinados em uníssono; e os demais, afinados em oitavas. Os nomes dados as cordas são de origem portuguesa, existindo, no entanto, muita contradição nas informações prestadas pelos violeiros, ou seja, a mesma corda recebendo vários nomes diferentes. Alguns violeiros concordam em geral com os seguintes nomes: prima e contra Prima ou primas - requinta e contra-requinta ou segundas - turina e contra-turina - toeira e contra-toeira - canotilho e contra-canotilho. Para o terceiro par encontramos ainda o nome verdegal, quando é usada linha de pesca no lugar da corda de aço. As violas, geralmente, são feitas artesanalmente, e o tempo mínimo para se fazer uma viola é de dez dias. 0 conhecido artesão Zé Côco do Riachão, um dos raros "fabricadores" de violas e rabecas, utiliza uma cola feita de banana do mato, também conhecida por sumaré. No tampo, ele usa a madeira emburana de espinho; o braço é feito de cedro; o espelho, cravelhas e ornamentos de caviúna (candeia); e a lateral feita de pinho. Entretanto, na maioria das violas encontradas, a madeira utilizada para o tampo, foi o pinho que, de acordo com os violeiros, é a de melhor sonoridade. 0 violeiro costuma dar à viola, os mais variados nomes, assim temos a viola caipira, a viola cabocla, a viola sertaneja, a viola de pinho, a viola de dez cordas, todas se referindo ao mesmo instrumento. A viola com dez trastes é denominada também de meia-regra, e a com trastes até na boca, de regra-inteira. No litoral paulista, foram encontradas, violas com sete cordas, (dois pares e três singelas), nove cordas (quatro pares e uma singela), e dez cordas (cinco pares), todas mantendo as cinco ordens de cordas. É interessante observar que, numa das afinações da viola de sete cordas, o quinto par foi afinado em intervalo de quinta, e o quarto, em uníssono.
Pesquisa feita por Kilza Stti, no início dos anos sessenta no litoral norte do Estado de São Paulo.
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Viola de Cocho
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A
palavra cocho é empregada pelo homem do campo, referindo-se a uma tora de
madeira escavada, formando uma espécie de recipiente. A viola de cocho,
encontrada no estado de Mato Grosso, recebe este nome, porque é
confeccionada em um tronco de madeira inteiriço, esculpido no formato de
uma viola, e escavado na parte que corresponderia à caixa de ressonância.
Neste cocho, no formato de viola é afixado um tampo, e em seguida, as
partes que caracterizam o instrumento, como o cavalete, o espelho, o
rastilho e as cravelhas. 0 seu comprimento é em torno de 70 cm por 25 cm,
com 10 cm de largura. Algumas violas possuem um pequeno furo circular no
tampo, medindo de 0,5 a 1 cm de diâmetro, outras não apresentam furo. A
viola sem furo no tampo é coisa recente, os violeiros antigos a preferem
com o furo, pois no dizer de um destes violeiros, "o furo é prá voz ficá
mais sorta, sem o furo a zoada fica presa". 0 braço da viola, juntamente
com a paieta (cravelha, é bem reduzido, medindo em torno de 25 cm. O cocho
é de muita utilidade no campo, e se presta, principalmente, à alimentar os
animais domésticos.
A paieta, geralmente, faz um ângulo bem acentuado com o corpo do instrumento, e possui cinco ou seis furos. Este instrumento apresenta sempre cinco ordens de cor das, com as cinco cordas singelas, ou com quatro singelas mais um par. Neste caso, a terceira ordem consistiria de um par de cordas afinado em oitava. Também é encontrada viola com seis furos na paieta, mas com apenas cinco cravelhas. As madeiras utilizadas na sua construção são várias: para o corpo do instrumento as preferidas são, a Ximbuva e o Sarã; para o tampo, Figueira branca, e para as demais peças, o Cedro. A maioria das violas de cocho se armam com cinco cordas singelas, quatro de tripa e uma de aço. Atualmente as cordas de tripa estão sendo substituídas por linhas de pesca, devido a proibição de caça na região. Estas, de acordo com os violeiros, são bem inferiores às de tripa. A corda de aço tem o nome de "canotio", e tem, aproximadamente, o mesmo calibre da quarta corda do violão. Os nomes das cordas são os seguintes: prima, segunda ou contra, do meio ou terceira, canotio e corda de cima. A preparação da tripa, para a confecção das cordas, é muito rudimentar, para explicar o procedimento adotado, transcrevemos, abaixo, os depoimentos de alguns violeiros, quando indagados sobre esse assunto. - "Ah! isto é fácil, o sinhô mata o animá, tira a tripa, e limpa bem por fora, vira ela e limpa bem por dentro, bem limpadinho. 0 sinhô marra um fio dum lado e dôtro e troce bem trucido. Estira o fio duma árvore a otra, põe um pesinho e pronto. Ele vai estirano... estirano, vai secano. Ah! fica que... uma beieza!!!" -- Sr. Gregório José da Silva, 74 anos, cururueiro - Poconé-MT, em 1983. - "Tira toda a tripa do Ouriço e começa a limpá com a unha, tira a carne de cima ficano a pura tripa. Depois vira ela, prá limpá por dentro e sair o limbo. Quando sai o limbo fica bem alvinho!, troce a tripa bem trucida e estira ela. Deixa secá e pronto. Aqui é muito difícil prá gente ter a corda, no sítio tem muita!" -W- Sr. Edézio Paz Rodrigues, 81 anos, cururueiro - Poconé-MT, em 1 953. ficano a pura tripa. Depois vira ela, prá limpá por dentro e sair o limbo. Quando sai o limbo fica bem alvinho!, troce a tripa bem trucida e estira ela. Deixa secá e pronto. Aqui é muito difícil prá gente ter a corda, no sítio tem muita!" -W- Sr. Edézio Paz Rodrigues, 81 anos, cururueiro - Poconé-MT, em 1 953. - "A tripa é o seguinte: Ocê pega a tripa e tira todo o ligume, toda massa, depois de tirar toda massa, tem que rapá a carne que tem por dentro. Por cima é uma pele muita fina... vira do avesso e vai rapano com muita ciência, quase não é passado unha, só com a força do dedo. Ocê faz uma cumbuquinha de foiha, coloca a tripa dentro e urina dentro, deixando passá uma meia hora, uma hora, na urina, prá curtí, prá dá mais resistência. Então agora vai levá num lugar de ispichá e, de acordo, com a grossura que ocê quer a corda, ocê vai botá peso, uma pedrinha marrada num fio bem no meio dele. Se quer que ela fica mais grossa, tem que botá peso menos, quer que ela fique mais fina, tem que botá peso maió... tem que torcê que fica turcidinha. 0 Ouriço dá doze cabeça de corda, dá prá encordoá uma viola, inda sobra..." - Sr. Manoel Severino de Moraes, 54 anos, artesão de viola de cocho e cururueiro - Cuiabá-MT, em 1 981. São vários os animais, cujas tripas são empregadas na confecção de cordas, os preferidos são: 0 Ouriço-Cacheiro (Porco-Espinhol, o Bugil (espécie de macaco, a Irara, o Macaco-Prego e Porca magra. A tripa de gato, apesar de dar uma boa corda, não é usada, porque, numa roda de cururu, se alguma viola estiver encordoada com cordas de tripa de gato, em pouco tempo começa a surgir brigas entre os violeiros. A tripa de gado não é usada porque é pouco resistente, "não guenta um toque". A do Macaco-Prego é muito usada, mas somente na época em que ele não está comendo formigas. Os violeiros afirmam que suas tripas ficam cheias de nós, provenientes das picadas destas, quando engolidas vivas. A viola de cocho é um instrumento bem primitivo, o número de pontos, ou trastos, varia entre dois a três. Quando a viola possui três pontos, o intervalo entre eles é de semitom, quando possui dois pontos, o primeiro dá o intervalo de um tom, e o segundo de semitom. Os pontos são feitos de barbante, amarrados bem firmes, e revestidos com cera de abelha, para que prendam melhor na madeira, no dizer do violeiro "prá garrá, prá firmá, senão ele joga... tano seco ele joga". A colagem das partes é feita usando o sumo da batata de sumaré (planta de região úmida), ou, na fala desta, um grude feito da "paca" da piranha, uma pequena tripa, também conhecida por bexiga natatória. A viola de cocho é usada, principalmente, para o cururú e o siriri, funções bem populares em Mato Grosso, mas também é usada para o rasqueado. Ela possui duas afinações básicas, a afinação "canotio solto" e a afinação "canotio preso", sendo muito semelhantes entre si. Os acordes mais usados são os de Tônica e Dominante com sétima e raramente o de Sub-Dominante. No siriri, onde a Sub-Dominante é mais usada, a afinação empregada é a de "canotio preso", para que esse acorde seja armado com apenas dois dedos. O interessante é que essa mesma armação é muitas vezes usada com a afinação "canotio solto".
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É sabido que a globalização jogou por terra paradigmas colados ao estado nacional. Mas quais seriam os impactos e os efeitos dessa guinada na cultura popular, mais especificamente na música caipira? Qual é o rito de passagem entre os intelectuais do começo do século 20, comprometidos com o ideário do nacional-popular, e os compositores que buscam novamente as raízes da música brasileira? Respostas a estas e a outras questões estão na análise feita, na entrevista que segue, pelo professor José Roberto Zan. O docente, que assume dia 7 a direção do Instituto de Artes, traça conexões complexas – êxodo rural e indústria cultural, por exemplo – e vai buscar, em estudiosos de diferentes áreas, material para consubstanciar suas teses. Embora ainda considerado “marginal” no meio acadêmico, o tema merece uma investigação profunda e pode revelar a multiplicidade de sentidos presente na diversidade cultural brasileira.
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JU – A que o senhor atribui a retomada da pesquisa e o interesse sobre a
chamada música caipira de raiz?
Zan – Se olharmos para a história da música popular brasileira, da
música popular produzida industrialmente e voltada para o mercado fonográfico,
vamos notar que em diferentes momentos ocorreram retomadas desse tipo, mas com
sentidos distintos.
JU – No que eles diferem?
Zan – Inicialmente, é importante lembrar que esse estilo de música
popular, identificado como sertanejo ou caipira, nos remete a um determinado
modo de vida ou a um tipo de sociedade que, na atualidade, praticamente
desapareceu. O desenvolvimento do capitalismo no Brasil, acompanhado pela
industrialização e pela urbanização da sociedade brasileira, especialmente ao
longo do século 20, provocou o rompimento do “equilíbrio ecológico e social”
desse modo de vida. Mas, apesar da sua desintegração, aspectos dessa cultura
ainda sobrevivem na memória de boa parcela da população brasileira.
JU – O senhor poderia exemplificar?
Zan – Estou me referindo ao mundo de pequenos sitiantes, de parceiros e
de agregados, que ocupou por muito tempo as regiões de população rarefeita do
centro-sul do país, mais precisamente no Estado de São Paulo, sul de Minas
Gerais, sul de Goiás e sudeste do Mato Grosso do Sul. Esse tipo humano, que
denominamos caipira, estava ligado a um modo de vida muito particular. Ocupava
uma pequena área de terra, desenvolvia uma agricultura diversificada, voltada
para o consumo próprio, criava alguns animais, complementava sua dieta
alimentar através da caça e da pesca, e praticava artesanato doméstico.
Eventualmente, o pequeno excedente gerado pela economia caipira era
comercializado no mercado mais próximo. Essa relação de troca ainda precária
com a vila ou com a cidade não era suficiente para romper o equilíbrio daquela
forma de organização social que Antonio Candido denominou de sociedade de
“mínimos vitais”. Esses sitiantes compunham habitat disperso em que se
configuravam unidades sociais caracterizadas por relações de parentesco e de
solidariedade vicinal denominadas bairros rurais. Uma complexa ritualística
associada a práticas festivas e religiosas, em geral vinculadas ao universo do
chamado “catolicismo rústico”, garantia a reprodução da sociabilidade dos
bairros. E a música era um dos elementos fundamentais desse universo.
JU – O senhor está se referindo a que
época?
Zan – Essa população se fixou pelo interior da capitania de São Vicente
já no século 18, após o declínio do bandeirantismo. No século 19, com a
expansão de grandes fazendas de cana, gado e café esses pequenos produtores se
converteram em sitiantes, agregados, posseiros, parceiros, sobrevivendo nas
fímbrias da sociedade escravista brasileira, formando um segmento social que a
professora Maria Sylvia [de Carvalho Franco] chamou de “trabalhadores livres
da ordem escravocrata”. O pequeno sitiante caipira estava à margem da grande
monocultura, voltada para a exportação, na qual predominava o trabalho
escravo. A música caipira à qual nos referimos, era parte integrante da
cultura desse segmento social.
JU – Que tipo de música era executada?
Zan – A toada, o toque de viola que acompanha as danças catira e
cururu, a música das folias de Reis e do Divino, a moda-de-viola, etc. Eram
músicas que não se dissociavam das práticas lúdico-religiosas da cultura
caipira.
JU – Qual a origem desses ritmos?
Zan – De acordo com estudos realizados por folcloristas, historiadores
e etnomusicólogos, muitos dos elementos que compõem essas manifestações
musicais são de origem européia e se mesclaram com aspectos da cultura
indígena. A viola, por exemplo, pode ser uma derivação do instrumento
português chamado viola de arame ou viola braguesa (possivelmente por ser
originária de Braga), introduzido no Brasil pelos jesuítas. A moda, poesia
cantada com acompanhamento de viola e/ou violão, mantém algumas
características herdadas das cantigas de gesta e do romanceiro tradicional
ibérico. Narrativa de fundo dramático, a moda normalmente conta um caso
extraordinário, sensacional, ou descreve um fenômeno relevante do cotidiano
caipira. É bastante semelhante ao que os nordestinos chamam de romance. O
canto em duas vozes, em intervalo de terça, característico das duplas
caipiras, é outra herança européia. Mas é provável que as vozes agudas dos
cantores tenha raízes ameríndias, assim como as danças catira (ou cateretê) e
cururu. Possivelmente, os jesuítas preservaram essas danças e as integraram às
festas católicas como estratégia da prática catequética.
JU – Como os músicos já consagrados e
integrados ao mercado se apropriam desses elementos?
Zan – Essa cultura é identificada como uma espécie de reserva de
tradição. Aí estão as “raízes” da chamada música sertaneja. Em determinados
momentos, compositores, intérpretes e produtores vão buscar nessa reserva de
tradição elementos que vão dar “autenticidade” àquela música produzida
modernamente.
JU – Como se situam, nesse contexto, os
compositores que já foram radicados no mundo rural e insistem em levar à sua
produção elementos tidos como autênticos?
Zan – É provável que algumas duplas sertanejas mantiveram “raízes”
musicais caipiras em seus repertórios espontaneamente, em função das suas
origens. Duplas e compositores que se integraram ao mercado fonográfico a
partir dos anos 30, como Teddy Vieira, Vieira e Vieirinha, Tonico e Tinoco,
Alvarenga e Ranchinho, e mais recentemente Pena Branca e Xavantinho, são
alguns exemplos. Numa entrevista concedida ao Programa Ensaio, da TV Cultura
[produção de Fernando Faro], Tonico e Tinoco revelam que quando moravam na
fazendo tocavam romance.
Eram histórias tão longas que, segundo eles,
havia pausa para o “povo” tomar café. [O termo romance que aparece na
entrevista revela a memória do romanceiro tradicional ibérico presente nessa
manifestação cultural]. Mas quando se transformaram em artistas urbanos não
puderam gravar as mesmas músicas que cantavam na fazenda. O próprio disco de
78 rpm impunha uma limitação de tempo à música, pois comportava
aproximadamente 3 minutos de gravação em cada lado. Mas a percepção de Tonico
e Tinoco das diferenças entre os mundos rural e urbano revela-se mais aguda
quando afirmam que “hoje, o povo da cidade não tem mais paciência para ouvir
romances longos como aqueles. Temos que fazer composições mais curtas”. Mesmo
assim, composições de artistas dessa época ainda guardam traços da música
caipira tradicional. Por exemplo, a conhecida composição de Teddy Vieira e
Luisinho, O Menino da Porteira, de 1955, apresenta características bastante
evidentes da moda de viola ou do romance sertanejo.
JU - Quando a música caipira migrou para o
disco?
Zan – Em 1910, o jornalista, escritor e produtor Cornélio Pires,
paulista de Tietê, apresentou na Universidade Mackenzie, em São Paulo, um
espetáculo que reuniu catireiros, cururueiros, e duplas de cantadores do
interior. Nos anos seguintes, realizou shows com duplas caipiras em várias
cidades do estado. Em 1929, pagou com recursos próprios a gravação do primeiro
disco contendo músicas, anedotas e poesias caipiras na Byington & Company,
representante da gravadora Colúmbia no Brasil. O sucesso dessa primeira
experiência levou Cornélio Pires a gravar outras séries e despertou o
interesse das gravadoras para explorar esse novo segmento fonográfico. A
partir de então, surgiram inúmeros compositores e duplas como Raul Torres,
Teddy Vieira, João Pacífico, Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco, Tião
Carreiro e Pardinho, que produziram um vasto repertório considerado atualmente
como a música sertaneja de “raiz”.
JU – Como o senhor vê a atuação de
compositores como Renato Andrade, Ivan Vilela, Paulo Freire, etc., cujas
produções não pode ser dissociada do embasamento teórico decorrente da
pesquisa?
Zan – São compositores pesquisadores e não, necessariamente, de origem
rural. Em geral, são originários da classe média urbana, intelectualizados,
que se encantam com cultura e com a música caipira. Porém, aqui cabe uma
verificação empírica mais cuidadosa, inclusive levando em conta as
características de cada compositor. Mas eu arriscaria dizer que eles olham
para a tradição de uma outra forma, até mesmo como objeto de pesquisa. E aí
reside um problema complexo, um importante objeto de investigação para as
ciências humanas.
JU – Por quê?
Zan – A necessidade de compreendermos o sentido que determinados
sujeitos sociais atribuem à tradição. A tradição não pode ser vista como algo
estático, naturalizado. Ela é redefinida, construída, reconstruída
permanentemente, no presente. Vale lembrar o já clássico texto de Eric
Hobsbawm e Terence Ranger, sobre a “invenção das tradições”. Pode-se dizer que
a tradição é uma invenção moderna. É o homem do presente que olha para o
passado e elege ou escolhe determinados aspectos que vão compor o que ele
define ou reconhece como tradição.
JU – O que orienta essa escolha?
Zan – São os valores dos sujeitos. Não me refiro ao homem do presente
como categoria abstrata, mas a sujeitos concretos, inseridos em teias de
relações sociais marcadas por tensões e conflitos. Conflitos e lutas que são
da própria natureza da sociedade moderna, de base capitalista, e que se
expressam ou se manifestam no plano da cultura. São sujeitos dotados de
valores, interesses, projetos específicos e que através deles olham para o
passado e inventam ou reinventam tradições. Poderíamos dizer então que no
presente convivem, de forma conflituosa, múltiplas tradições.
JU – Pode-se dizer que os compositores
pesquisados buscam as raízes da música brasileira. Quais seriam os
antecedentes históricos dessa noção de autenticidade da cultura popular?
Zan – Em primeiro a perspectiva romântica – que está presente na obra
de muitos intelectuais brasileiros do início do século 20 – através da qual
buscava-se identificar na cultura do povo elementos da identidade cultural
brasileira. Acreditava-se que tais elementos estavam presentes na cultura do
homem de campo. Por se tratar de um tipo humano originário de contextos
sociais pré-capitalistas o homem do campo ainda não havia sido corrompido pela
modernização, pelo mundo urbano, pela sociedade industrial. Era bom, puro e
dócil. Já nas cidades, com o processo de industrialização que se acelera a
partir das primeiras décadas do século 20, começa a emergir uma nova categoria
ou uma nova classe social, o proletariado urbano. E juntamente com ela um novo
tipo de conflito social até certo ponto ameaçador para as elites brasileiras,
a luta de classes. O proletariado urbano nascente era, de certo modo,
identificado como componente das chamadas “classes perigosas”. Em segundo
lugar, o dilema compartilhado por grupos sociais dominantes, da construção do
estado nacional. A necessidade de construção e consolidação da nacionalidade
orientava a escolha dos elementos culturais populares constitutivos da
identidade cultural brasileira. Desse modo, e aqui estou sendo muito
sintético, configura-se o ideário “nacional-popular”.O modernista Mário de
Andrade, por exemplo, buscava nas culturas populares regionais e rurais os
elementos de uma autêntica música brasileira ou, posto de outra forma, as
bases do nacionalismo musical.
JU – Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, por
exemplo, chegaram a introduzir alguns elementos da chamada música caipira de
raiz em sua obra.
Zan – Não só caipira, mas de culturas rurais ou sertanejas de outras
regiões do país. São músicos que realizaram o que poderíamos chamar de
apropriação culta da música popular rural.
JU – Qual seria o elo de ligação entre os
compositores nacionalistas eruditos e os novos músicos que buscam o resgate da
música de raiz?
Zan –De certo modo, o sentido da produção dos novos compositores
pesquisadores a que nos referíamos guarda alguma afinidade com a dos
compositores nacionalistas dos anos 30 e 40. Porém, é preciso destacar que
esses novos artistas vivem num momento histórico distinto. Atualmente, não se
coloca mais a questão da nacionalidade como se colocava na primeira metade do
século XX. Esses novos compositores vivem num contexto histórico marcado pela
inserção do país numa conjuntura internacional em que se verifica o
aprofundamento da internacionalização do capitalismo e da mundialização da
cultura. São processos definidos por alguns cientistas sociais como
globalização, acompanhados pelo fortalecimento das tendências de
desenraizamento e mercantilização da cultura. Nesse quadro, abre-se uma nova
crise nas configurações dos estados nacionais. Como diz Stuart Hall, a
globalização provoca um “afrouxamento” da noção de cultura nacional e cria
brechas para processos de identificação “acima” e “abaixo” dos contornos do
estado-nação.
Verifica-se, portanto, o que alguns
sociólogos, dentre eles os brasileiros Octavio Ianni e Renato Ortiz, definem
como a dialética da globalização, ou seja, a relação contraditória entre o
global e o local, ou entre as tendências de homogeneização global e a busca da
alteridade, do autêntico, da diferença. Ainda destacando a necessidade de se
buscar evidências empíricas mais consistentes, e reconhecendo as
particularidades das produções desses compositores, eu ousaria afirmar que o
que orienta as ações desses artistas e até mesmo a identificação do público
com esse repertório são as novas demandas por “autenticidade” e alteridade que
se reforçam frente à padronização global.
JU – E as duplas que produzem para um
público de massa como Chitãozinho e Xororó, Zezé de Camargo e Luciano, Jean e
Giovani ?
Zan – Essas duplas produzem um novo estilo de música sertaneja que se
consolidou no mercado fonográfico a partir dos anos 80. O repertório produzido
por elas é definido por críticos musicais e pesquisadores como “sertanejo
pop”, “sertanejo romântico” ou “neo-sertanejo”. São duplas mais suscetíveis às
novas influências estilísticas. São artistas populares que vão produzir para
um público de massa também suscetível às mudanças, à “modernização” da música
sertaneja. Produtores, diretores artísticos e profissionais de marketing
fonográfico que atuam em gravadoras conhecem o público e indicam as inovações
para garantir a vendagem dos discos. A antiga imagem estereotipada do caipira
mal vestido, banguela, com chapéu de palha foi superada. As novas duplas usam
roupas de grife, cabelo bem-cortado, têm os dentes tratados, etc. As mudanças
estilísticas também têm apelo comercial destinado a um público ávido por
novidades. A viola foi substituída por instrumentos eletrônicos como guitarra,
o contra-baixo elétrico e teclados, além de bateria e, eventualmente, bancada
e instrumentos de percussão. Tanto as composições como os arranjos apresentam
elementos da música urbana de massa, especialmente das baladas românticas da
Jovem Guarda. Portanto, da música caipira de fato restam poucos aspectos.
Talvez, as vozes agudas dos cantores e, os duetos em terça, porém empregados
de modo mais econômico.
JU – Em última análise, não estariam muito
preocupados com essa noção de pureza e de autenticidade...
Zan – Não do mesmo modo que os compositores pesquisadores. Mas é
interessante observar que algumas duplas inserem em seus CDs pelo menos uma
música do chamado repertório de “raiz”, com arranjos tidos como “modernos”.
Provavelmente isso representa uma estratégia de legitimação do disco e visa a
garantir identidade da produção com um público mais amplo.
JU – Qual o papel desempenhado pela
indústria cultural nesse contexto?
Zan – A partir do final dos anos 60, verifica-se uma grande expansão
dos meios de comunicação de massa e da indústria cultural no Brasil. Essa
expansão atingiu diversos ramos da indústria cultural como a produção
editorial, as redes de televisão, a indústria fonográfica, cujas empresas
passam a reorganizar seus processos de produção com base em novos padrões
empresariais, na incorporação de novas tecnologias e na adoção de estratégias
de marketing eficazes. É um momento que Renato Ortiz, autor de a Moderna
Tradição Brasileira, chama de consolidação do mercado de bens simbólicos no
Brasil.
Essa nova música sertaneja começa a ser
produzida nesse momento. Aí se destaca a atuação de Sérgio Reis, um dos
intérpretes que inauguram essa fase. Em 1973, marginalizado no mercado devido
ao fim da Jovem Guarda, teve a iniciativa de gravar uma composição do
repertório sertanejo quando presenciou uma multidão cantar durante um show na
praça de uma cidade do interior mineiro, a música Menino da Porteira. De volta
a São Paulo, entrou em contato com Tony Campelo, então produtor da RCA, que
lhe garantiu a gravação da famosa composição de Teddy Vieira. Sérgio Reis deu
um novo tratamento à música, com arranjo mais “moderno”, incluindo
instrumentos eletrônicos, economizou nos duetos e cantou com pronúncia
“urbana”. Foi um sucesso enorme de vendagem que lhe garantiu a realização de
um filme com a temática da música. No mesmo período, destacaram-se novas
duplas como Milionário e José Rico, Léo Canhoto e Robertinho, que também
marcaram o início dessa nova fase da música sertaneja.
JU– Esse é o momento da virada da música
sertaneja?
Zan – Sem dúvida. Essas novas duplas que aparecem de 70 vão produzir um
repertório que se confunde com o segmento, também em expansão naquele momento,
chamado de brega. Isso tudo acontece num momento em que, na sociedade
brasileira, aprofunda-se a chamada modernização conservadora com impacto
enorme sobre o mundo rural.
JU – Por quê?
Zan – A modernização que ocorre no campo a partir dessa época não
modificou a estrutura fundiária até então vigente no país. A concentração da
propriedade foi reforçada, latifúndios transformaram-se em empresas rurais,
ampliou-se a mecanização da produção. O impacto desses processos sobre as
relações de produção no campo foi muito grande. Vão desaparecendo as figuras
do parceiro, do meeiro, do agregado nas áreas da tradicional cultura caipira.
Ao mesmo intensificam-se, por um lado, o êxodo rural e a canalização de
enormes contingentes de ex-trabalhadores rurais para as grandes cidades,
ampliando o proletariado urbano. Por outro, cresce o assalariamento rural e a
emergência da figura do bóia-fria. Ocorre um verdadeiro esvaziamento do campo
no Brasil e o inchaço das grandes cidades. Ao mesmo tempo, a emergência de um
novo empresariado rural. Pode-se dizer que começa a se configurar no país uma
“nova ruralidade”.
JU - Nesse contexto, aquela figura
tradicional do caipira é redefinida?
Zan - Aquela imagem do caipira indolente de Monteiro Lobato vai ser
substituída pela do novo empreendedor rural. Nesse contexto, novos elementos
simbólicos vão compor o que poderíamos chamar, provisoriamente, de uma nova
“estética” ruralista.
JU – Onde vão buscar esses elementos
simbólicos?
Zan – Parte deles no mundo rural norte-americano. Essa música sertaneja
começa a se mesclar com os elementos da música country. Não é por acaso que
duplas sertanejas desse novo momento vão gravar em Nashville, que é a Meca da
música caipira mundial. De certa forma, esse repertório está traduzindo as
mudanças que ocorreram na sociedade rural brasileira nas últimas décadas.
Lembrando o diagnóstico de Stuart Hall citado anteriormente, poderíamos dizer
que estamos diante de um exemplo do processo de identificação que ocorre
“acima” dos contornos do estado-nação. Os elementos simbólicos que vão compor
uma possível identidade ruralista são, em grande parte, originários de
tradições situadas além das fronteiras nacionais.
| BIBLIOGRAFIA MELLO E SOUZA, Antonio Candido.
Os parceiros do Rio Bonito. RJ, Livraria José Olympio, 1964. FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres da
ordem escravocrata. SP, IEB/USP, 1969. HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade.
RJ, DP&A, 1999. |
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