Viola Tropeira

Trecho da música "Amanheceu Chovendo",que está no Cd "Viola Tropeira" de Ricardo Anastacio a venda pelo  pelo email violatropeira@terra.com.br ou pelo fone: 15 9701-7068             Chat aos domigos à partir das 15h para tirar dúvidas sobre viola            Aulas online        Métodos de Viola com Cd de Rítmos e Ponteados

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  A Origem Caipira

 

                                          

O caipira por Vanda Catarina P. Donadio


      Caipira é uma denominação tipicamente paulista. Nascida da primeira miscigenação entre o branco e o índio. "Kaai 'pira" na língua indígena significa, o que vive afastado, ("Kaa"-mato ) ( "Pir" corta mata ) e ( "pira"- peixe). Também o cateretê, inicialmente uma dança religiosa indígena, na qual os Índios batiam palmas, seguindo o ritmo da batida dos pés, deu origem a "catira". A catira passou a ser um costume de caboclos, antigamente chamados de "cabolocos". Com o avanço dos brancos em direção ao Mato Grosso e Paraná a cultura caipira foi junto, levada principalmente pelos tropeiros. Hoje o termo "Caipira" generalizou-se sendo para o citadino uma figura estereotipada. Mas esse ser escorregadio e desconfiado por natureza, resiste às imposições vindas de fora. Tem uma espécie de cultura independente, como a dos Índios. Infelizmente alguns intelectuais passaram de modo errôneo a imagem do caipira. Hoje as festas "caipiras" que se encontram nas cidades e nas escolas não passam de caricaturas de uma realidade maior. Foi criada uma deturpação do que o povo brasileiro possui de mais profundo e encantador em suas raízes. "A primeira mistura", a pedra fundamental. O falar errado do caipira não é proposital. Permanecendo ele afastado das cidades, mantém no seu dialeto, muito conhecimento, que o homem da cidade já perdeu, com sua prosperidade aparente. O caipira conhece as horas apenas olhando para o céu e vendo a posição do sol. Sabe se no dia seguinte virá chuva ou não, pois conhece a fundo o mundo natural. Tem um chá para cada doença, uma simpatia para cada tristeza... Para o citadino o caipira virou motivo de divertimento, quando deveria ser o exemplo de amor à terra. Do antepassado Índio ele herdou a familiaridade com a mata, o faro na caça, a arte das ervas, o encantamento das lendas. Do branco a língua , costumes, crenças e a viola, que acabou sendo um dos símbolos de sua resistência pacífica. Muitos são os ritmos executados na viola, da valsa ao cateretê. Temos Cateretê baião; Chula polca; Toada de reis: Cateretê- batuque, Landú, Toada; Pagode, etc. Apesar de parecer um homem rústico, de evolução lenta, nas suas mãos calejadas ,ele mantém o equilíbrio e a poesia da fusão duas etnias. E traduz seu sentimento acompanhado da viola, companheira do peito, onde canta suas esperanças, tristezas e as belezas do nosso país. A música rural, criativa , contrapõe-se aos modismos vindos do exterior. Ainda é uma forma resistente de brasilidade, feita por um do povo que conhece muito o chão do nosso país. Hoje estão querendo fazer uma fusão cultural, a do "caipira" com o "country" americano. O que se vê, é gente fantasiada de "cowboy", mas que não sabe sequer em qual fase da lua estamos...Para homenagear o verdadeiro caipira paulista aqui temos uma música bem conhecida:, cantada pelo jovem violeiro Rodrigo Matos, composição de Cacique e Carreirinho; 

 

Pescador e Catireiro ( Cacique e Pajé)

 

Comprei uma mata virgem /Do coronel Bento Lira

Fiz um rancho de barrote /Amarrei com cipó cambira

Fiz na beira da lagoa /Só pra pescar traíra

Eu não me incomodo que me chamem de caipira /No lugar que índio  canta

Muita gente admira /Canoa fiz de paineira

Varejão de guaruvira /A poita pesa uma arroba

Dois remos de sucupira /Se jogo a tarrafa n' água

Sozinho um homem não tira /Capivara é bicho arisco quando cai

Na minha mira /Puxo o arco e jogo a flecha

Lá no barranco revira /Eu sou grande pescador

também gosto de um catira/Quando eu entro num pagode

não tem quem não se admira /No repique da viola

Contente o povo delira /Se a tristeza está na festa eu chego

Ela se retira /Bato palma e bato o pé

Até as moça suspira /Muita gente não conhece

O canto da corruíra /Nem o sabe o gosto que tem

A pinga com sucupira /Morando lá na cidade

Não se come cambuquira /É por isso que eu gosto do sistema do caipira

Pode até ficar de fogo /Ele não conta mentira

Vanda Catarina P. Donadio é escritora infanto-juvenil, professora de idiomas e divulgadora cultura

         

   

Catequistas se moviam
pra provar o seu amor
aos nativos que temiam
o estranho invasor
mas ouvindo o som mavioso
de uma viola a soluçar
o selvagem, cauteloso,
espreitava, a escutar.
(Assim Nasceu o Cururu, Cap. Furtado( de Tiete sp. Sobrinho de Cornélio Pires e Laureano,  de Sorocaba,hoje Votorantim. Compositor da famosa,Marvada Pinga)

     O cururu nasceu, pois, dos cantos religiosos marcados por batidas de pé. Das festas ao redor dos oratórios ganhou os terreiros, nos acontecimentos sociais das fazendas e vilas. Nos anos 30, Mário de Andrade viajou pelo interior paulista, nas suas pesquisas, e observou que no médio-Tietê cururu era desafio improvisado, uma espécie de "combate poético" entre violeiros-cantadores, iniciado com saudações aos santos. Dessa forma ele ainda resiste em cidades como Piracicaba, Sorocaba, Tietê, Conchas e Itapetininga  a chamada região cururueira do estado. Entre os cururueiros mais famosos do disco estão os irmãos DIVINO chamados reis do cururu dupla de SOROCABA. Vieira e Vieirinha, de Itajobi, SP (o segundo, morto em 1990), que brilharam nos anos 50.

    O catira ou cateretê surgiu de uma dança indígena, o caateretê, também adotada nos cultos católicos dos primórdios da colonização. As bases mais sólidas de seu reino se estabeleceram em São Paulo e Minas Gerais. Com solos de viola e coro, acompanhados de sapateado e palmeado, ele começa com uma moda de viola, entremeada por solos, e evolui para uma coreografia simples mas bastante rítmica. O clímax, no final, é o "recortado", com viola, coro, palmeados, sapateados e muita animação. O catira é o coração de festas populares como as Folias de Reis e as de São Gonçalo, . Entre grandes catireiros estão  VIEIRA E VIEIRINHA chamados merecidamente de os reis da catira , Tonico e Tinoco de São Manuel SP (o primeiro, morto em 1994), que registraram incontáveis sucessos nos anos 40 e 50. Atualmente, entre os novos-caipiras, o mineiro Chico Lobo é violeiro-cantador que domina essa velha arte.

    O fandango, por sua vez, nasceu como dança vigorosa de tropeiros que o aprenderam no extremo sul do país, com seus colegas uruguaios. Sofreu modificações nas diversas regiões onde chegou e ainda é cultivado em alguns núcleos por todo o país, como no litoral paranaense. Resultante da mistura da música dos brancos da roça com a dos negros escravos, o calango firmou-se especialmente no Rio de Janeiro rural e em Minas Gerais. Martinho da Vila, fluminense de Duas Barras, compôs e gravou alguns bons calangos, puxados na viola e com instrumentos percussivos.

     A moda de viola se destaca
Entre tantos ritmos e estilos formados a partir das toadas, cantigas, viras, canas-verdes, valsinhas e modinhas, trazidos pelos europeus, a moda de viola se transformou na melhor expressão da música caipira. Com uma estrutura que permite solos de viola e longos versos intercalados por refrões, com letras quilométricas contando fatos históricos e acontecimentos marcantes da vida das comunidades, ela ganhou vida independente do catira. E seduziu grandes compositores, como os paulistas Teddy Vieira (de Buri) e Lourival dos Santos (de Guaratinguetá), já falecidos, bastante ativos entre os anos 50 e 60. Atualmente, os mineiros Zé Mulato e Cassiano estão entre os bons compositores e cantadores de modas de viola.

    À medida que o país se urbanizou e precisou da mão de obra barata do povo do interior, levas de artistas caipiras e nordestinos também chegaram a São Paulo e ao Rio de Janeiro para disputar seus palcos e estúdios. Assim, emboladas e cocos se misturaram a maxixes, guarânias, rasqueados, chamamés, boleros, baladas e rancheiras  e a tudo o que se ouvia no rádio nos anos 50 e nas fronteiras do país. Todas essas matrizes sonoras formaram, com os gêneros caipiras tradicionais, o que passou a ser sacralizado, na terminologia do mercado fonográfico, como música "sertaneja". Mais sons entrariam nesse caldeirão: a partir dos anos 60, o rock e a MPB dos festivais, e, nos 80, a country music americana.

     Entre os marcos das diversas fases da música que nasceu na roça e hoje, bastante modificada, embala multidões de norte a sul do país, podemos destacar as primeiras gravações de modas de viola e de outros gêneros caipiras por violeiros-cantadores do interior paulista, em 1929  na série de discos produzida por Cornélio Pires para a Columbia. Na década de 30, vieram os sucessos de João Pacífico e Raul Torres, de Alvarenga e Ranchinho. Já Tonico e Tinoco pontificaram a partir dos anos 40.

     Vários estilos no saco
O apogeu dos caipiras foi nos 50: levas de duplas, especialmente do interior de São Paulo, tiveram espaço nobre nas gravadoras e emissoras de rádio. O filão caipira abrigou, nessa época, as guarânias de Cascatinha e Inhana e as rancheiras mexicanas de Pedro Bento e Zé da Estrada. Entre 60 e 70, o aparecimento de Sérgio Reis e Renato Teixeira  o primeiro saído da Jovem Guarda, o outro dos festivais da TV Record  agitou o mundo sertanejo. Exatamente em 1960 um genial violeiro do norte de Minas, Tião Carreiro, inventava o pagode caipira, mistura de samba, coco e calango de roda (na definição de outro tocador e conterrâneo, Téo Azevedo).

    Nos anos 80 surgiram a dupla mineira Pena Branca e Xavantinho, adequando sucessos da MPB à linguagem das violas, e Almir Sater, violeiro sofisticado, que passeava entre as modas de viola e os blues. A guinada para a country music, com a adoção de instrumentos eletrificados e a formação de grandes bandas deu-se a partir do mega-sucesso de Chitãozinho e Xororó, em 1982. A eles, seguiram-se outras duplas de sucesso, cada vez mais direcionadas para o romatismo pop herdado da jovem guarda, como Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano.

    Os anos 90 marcaram a convivência de dois segmentos musicais originários dos gêneros rurais: o dos mencionados sertanejos-pop, voltado para grandes mercados internacionais, e o dos novos-caipiras - músicos saídos das universidades, dispostos a retrabalhar a música "raiz". Estes criaram um circuito de gravadoras independentes e apresentações em teatros, entre São Paulo e Belo Horizonte, já se irradiando até o Rio de Janeiro. Os detonadores desse movimento foram Renato Teixeira e Almir Sater. Entre os nomes mais expressivos dessa nova geração de instrumentistas-compositores estão os mineiros Roberto Corrêa, Ivan Vilela, Pereira da Viola e Chico Lobo, e o paulista Miltinho Edilberto.

 

A Viola

            A viola é um instrumento bem menor que o violão, com a cintura mais acentuada, e encordoado de maneira diferente. Ela possui dez cordas, agrupadas duas a duas, sendo algumas de aço e outras, revestidas de metal. A disposição das cordas, começando de baixo para cima é: os dois primeiros pares afinados em uníssono; e os demais, afinados em oitavas. Os nomes dados as cordas são de origem portuguesa, existindo, no entanto, muita contradição nas informações prestadas pelos violeiros, ou seja, a mesma corda recebendo vários nomes diferentes. Alguns violeiros concordam em geral com os seguintes nomes: prima e contra Prima ou primas - requinta e contra-requinta ou segundas - turina e contra-turina - toeira e contra-toeira - canotilho e contra-canotilho. Para o terceiro par encontramos ainda o nome verdegal, quando é usada linha de pesca no lugar da corda de aço. As violas, geralmente, são feitas artesanalmente, e o tempo mínimo para se fazer uma viola é de dez dias. 0 conhecido artesão Zé Côco do Riachão, um dos raros "fabricadores" de violas e rabecas, utiliza uma cola feita de banana do mato, também conhecida por sumaré. No tampo, ele usa a madeira emburana de espinho; o braço é feito de cedro; o espelho, cravelhas e ornamentos de caviúna (candeia); e a lateral feita de pinho. Entretanto, na maioria das violas encontradas, a madeira utilizada para o tampo, foi o pinho que, de acordo com os violeiros, é a de melhor sonoridade. 0 violeiro costuma dar à viola, os mais variados nomes, assim temos a viola caipira, a viola cabocla, a viola sertaneja, a viola de pinho, a viola de dez cordas, todas se referindo ao mesmo instrumento. A viola com dez trastes é denominada também de meia-regra, e a com trastes até na boca, de regra-inteira. No litoral paulista, foram encontradas, violas com sete cordas, (dois pares e três singelas), nove cordas (quatro pares e uma singela), e dez cordas (cinco pares), todas mantendo as cinco ordens de cordas. É interessante observar que, numa das afinações da viola de sete cordas, o quinto par foi afinado em intervalo de quinta, e o quarto, em uníssono.

Pesquisa feita por Kilza Stti, no início dos anos sessenta no litoral norte do Estado de São Paulo.

 

Viola de Cocho

A palavra cocho é empregada pelo homem do campo, referindo-se a uma tora de madeira escavada, formando uma espécie de recipiente. A viola de cocho, encontrada no estado de Mato Grosso, recebe este nome, porque é confeccionada em um tronco de madeira inteiriço, esculpido no formato de uma viola, e escavado na parte que corresponderia à caixa de ressonância. Neste cocho, no formato de viola é afixado um tampo, e em seguida, as partes que caracterizam o instrumento, como o cavalete, o espelho, o rastilho e as cravelhas. 0 seu comprimento é em torno de 70 cm por 25 cm, com 10 cm de largura. Algumas violas possuem um pequeno furo circular no tampo, medindo de 0,5 a 1 cm de diâmetro, outras não apresentam furo. A viola sem furo no tampo é coisa recente, os violeiros antigos a preferem com o furo, pois no dizer de um destes violeiros, "o furo é prá voz ficá mais sorta, sem o furo a zoada fica presa". 0 braço da viola, juntamente com a paieta (cravelha, é bem reduzido, medindo em torno de 25 cm. O cocho é de muita utilidade no campo, e se presta, principalmente, à alimentar os animais domésticos.

A paieta, geralmente, faz um ângulo bem acentuado com o corpo do instrumento, e possui cinco ou seis furos. Este instrumento apresenta sempre cinco ordens de cor das, com as cinco cordas singelas, ou com quatro singelas mais um par. Neste caso, a terceira ordem consistiria de um par de cordas afinado em oitava. Também é encontrada viola com seis furos na paieta, mas com apenas cinco cravelhas. As madeiras utilizadas na sua construção são várias: para o corpo do instrumento as preferidas são, a Ximbuva e o Sarã; para o tampo, Figueira branca, e para as demais peças, o Cedro. A maioria das violas de cocho se armam com cinco cordas singelas, quatro de tripa e uma de aço. Atualmente as cordas de tripa estão sendo substituídas por linhas de pesca, devido a proibição de caça na região. Estas, de acordo com os violeiros, são bem inferiores às de tripa. A corda de aço tem o nome de "canotio", e tem, aproximadamente, o mesmo calibre da quarta corda do violão. Os nomes das cordas são os seguintes: prima, segunda ou contra, do meio ou terceira, canotio e corda de cima. A preparação da tripa, para a confecção das cordas, é muito rudimentar, para explicar o procedimento adotado, transcrevemos, abaixo, os depoimentos de alguns violeiros, quando indagados sobre esse assunto. - "Ah! isto é fácil, o sinhô mata o animá, tira a tripa, e limpa bem por fora, vira ela e limpa bem por dentro, bem limpadinho. 0 sinhô marra um fio dum lado e dôtro e troce bem trucido. Estira o fio duma árvore a otra, põe um pesinho e pronto. Ele vai estirano... estirano, vai secano. Ah! fica que... uma beieza!!!" -- Sr. Gregório José da Silva, 74 anos, cururueiro - Poconé-MT, em 1983. - "Tira toda a tripa do Ouriço e começa a limpá com a unha, tira a carne de cima ficano a pura tripa. Depois vira ela, prá limpá por dentro e sair o limbo. Quando sai o limbo fica bem alvinho!, troce a tripa bem trucida e estira ela. Deixa secá e pronto.

Aqui é muito difícil prá gente ter a corda, no sítio tem muita!" -W- Sr. Edézio Paz Rodrigues, 81 anos, cururueiro - Poconé-MT, em 1 953. ficano a pura tripa. Depois vira ela, prá limpá por dentro e sair o limbo. Quando sai o limbo fica bem alvinho!, troce a tripa bem trucida e estira ela. Deixa secá e pronto. Aqui é muito difícil prá gente ter a corda, no sítio tem muita!" -W- Sr. Edézio Paz Rodrigues, 81 anos, cururueiro - Poconé-MT, em 1 953.

- "A tripa é o seguinte: Ocê pega a tripa e tira todo o ligume, toda massa, depois de tirar toda massa, tem que rapá a carne que tem por dentro. Por cima é uma pele muita fina... vira do avesso e vai rapano com muita ciência, quase não é passado unha, só com a força do dedo. Ocê faz uma cumbuquinha de foiha, coloca a tripa dentro e urina dentro, deixando passá uma meia hora, uma hora, na urina, prá curtí, prá dá mais resistência. Então agora vai levá num lugar de ispichá e, de acordo, com a grossura que ocê quer a corda, ocê vai botá peso, uma pedrinha marrada num fio bem no meio dele. Se quer que ela fica mais grossa, tem que botá peso menos, quer que ela fique mais fina, tem que botá peso maió... tem que torcê que fica turcidinha. 0 Ouriço dá doze cabeça de corda, dá prá encordoá uma viola, inda sobra..." - Sr. Manoel Severino de Moraes, 54 anos, artesão de viola de cocho e cururueiro - Cuiabá-MT, em 1 981. São vários os animais, cujas tripas são empregadas na confecção de cordas, os preferidos são: 0 Ouriço-Cacheiro (Porco-Espinhol, o Bugil (espécie de macaco, a Irara, o Macaco-Prego e Porca magra. A tripa de gato, apesar de dar uma boa corda, não é usada, porque, numa roda de cururu, se alguma viola estiver encordoada com cordas de tripa de gato, em pouco tempo começa a surgir brigas entre os violeiros. A tripa de gado não é usada porque é pouco resistente, "não guenta um toque". A do Macaco-Prego é muito usada, mas somente na época em que ele não está comendo formigas. Os violeiros afirmam que suas tripas ficam cheias de nós, provenientes das picadas destas, quando engolidas vivas. A viola de cocho é um instrumento bem primitivo, o número de pontos, ou trastos, varia entre dois a três. Quando a viola possui três pontos, o intervalo entre eles é de semitom, quando possui dois pontos, o primeiro dá o intervalo de um tom, e o segundo de semitom. Os pontos são feitos de barbante, amarrados bem firmes, e revestidos com cera de abelha, para que prendam melhor na madeira, no dizer do violeiro "prá garrá, prá firmá, senão ele joga... tano seco ele joga". A colagem das partes é feita usando o sumo da batata de sumaré (planta de região úmida), ou, na fala desta, um grude feito da "paca" da piranha, uma pequena tripa, também conhecida por bexiga natatória. A viola de cocho é usada, principalmente, para o cururú e o siriri, funções bem populares em Mato Grosso, mas também é usada para o rasqueado. Ela possui duas afinações básicas, a afinação "canotio solto" e a afinação "canotio preso", sendo muito semelhantes entre si.

Os acordes mais usados são os de Tônica e Dominante com sétima e raramente o de Sub-Dominante. No siriri, onde a Sub-Dominante é mais usada, a afinação empregada é a de "canotio preso", para que esse acorde seja armado com apenas dois dedos. O interessante é que essa mesma armação é muitas vezes usada com a afinação "canotio solto".
          As informações deste capítulo foram colhidas por E. Travasso e o autor, em pesquisa do instituto Nacional do Folclore, FUNARTE, em Mato Grosso.

 

A Viola Cabocla

Este trabalho, de autoria do Professor Alceu Maynard de Araújo, foi publicado em artigos, na Revista Sertaneja de números 4, 5, 6, 7, 8, 9, 13 e 14, de julho de 1958 a maio de de 1959. Por sua importância para a divulgação deste instrumento tão valioso para a cultura sertaneja, este artigo está sendo transcrito na íntegra, inclusive as fotos. Estas estão com baixa qualidade devido a deterioração do papel, devido a idade do mesmo (45 anos). Ao final do trabalho, veja uma pequena biografia do Prof. Alceu.

Origem da Viola

A viola é por excelência um instrumento musical do meio rural, sendo muito disseminada em nosso país, e encontrada nos mais longínqüos rincões do sertão brasileiro.

Sua origem é remota. No baixo latim encontramos: vidula, vitula, viella ou fiola, mas nenhum destes vocábulos serviu para designar a nossa viola. Tratava-se de um violino pequeno, um tetracórdio. Era a viola de arco, uma espécie de rabeca. Mas a nossa viola é também bastante idosa, veio de Portugal e ao aclimatar-se em terras brasileiras sofreu algumas modificações, não só em sua anatomia como também no número de cordas. É a lei da evolução. Evoluiu tanto que nós conhecemos no Brasil cinco tipos distintos de violas de cordas de aço: a paulista, a goiana, a cuiabana, a angrense e a nordestina. Dos tipos mencionados, estudaremos apenas a paulista e a angrense pelo fato de serem as mais conhecidas e encontradas com maior freqüência em nosso Estado.

A viola é o instrumento fundamental do "modinheiro", é cordofônio, pois suas cordas comunicam sua vibração ao ar. Serve para acompanhamento de canto e dança. Pode ser tocada só, executando solos, em dupla, o que é muito comum ou para acompanhamento.

Ao lado da viola, porém com menor freqüência, encontramos a rabeca, também oriunda de Portugal. Parece que a rabeca foi no passado a companheira inseparável da viola, sendo atualmente olvidada, quase que só encontrada no litoral. A rabeca não dispensa a companhia da viola, pois não costumam fazer solos de rabeca. Completando a enumeração de cordofônios tradicionais, preciso é mencionar o cocho, viola rudimentaríssima, hoje completamente esquecida. Dele tivemos conhecimento ocasionalmente em Tietê, por ocasião de um Cururu rural, num pouso da Bandeira do Divino Espírito Santo, em outubro de 1947.

A urbanização da viola, isto é, a sua entrada nos palcos e hoje nos auditórios das estações de rádio e televisão, devemo-la ao saudoso folclorista paulista Cornélio Pires, que em 1910 organizou um programa de violas no palco da cidade de Tietê e pouco mais tarde, num festival em São Paulo, no então Mackenzie College.

O violão, que na urbanização da viola está ao seu lado, goza atualmente na cidade tão larga difusão que podemos dizer que é o instrumento do meio urbano. O violão já foi largamente desacreditado. Tocador de violão era sinônimo de vagabundo. Graças ao velho Catulo da Paixão Cearense, o violão hoje anda nas mãos das "granfininhas". E que realeza tem um violão enfeitado pela Inezita Barroso! Bem, voltemos à nossa viola.

Quando os portugueses aqui chegaram, ao lado do desejo de trabalhar na dura lide de povoar e colonizar as terras cabralinas, trouxeram também algo que encheria os momentos de lazer. As danças e os cantos camponeses, a viola, a rabeca, o adufe, o triângulo, a tarola, o culto a São Gonçalo, as Folias de Reis e do Divino Espírito Santo e os votos de comer e beber na Igreja, estes já codicilados e condenados nas Ordenações Filipinas. Na terra além-mar eles iriam viver e, as danças, cantos, cerimônias religiosas contribuíram para anular a nostalgia.

A viola de arame, de Braga (Portugal) ou viola braguesa, ao chegar ao Brasil parece não ter evoluído muito, ao ponto de vista social, como aconteceu com sua irmã rabeca, que tomando ares civilizados, com roupagem mais sólida, tornou-se o aristocrático violino que subiu para os coros das igrejas católicas, deixando cá fora, nas soleiras das portas das choupanas, aquela que é mais rica em número de cordas, porém pobre nos atavios, feita até hoje de tábuas de caixão.

Não possuímos um regular acervo de elementos para comparar a antiga viola braguesa com a atual viola caipira. No presente trabalho não temos em mira apresentar os resultados de uma pesquisa histórica desse instrumento, como nos sugeriu Mário de Andrade, em 1943, mas deixamo-lo em andamento. Estamos ainda colhendo documentação. Apenas queremos afirmar que si fora instrumento popular entre os campônios portugueses, qual a guitarra, aqui é também popular entre os caipiras e caiçaras.

Viola artesanal sendo
feita em Tatuí, São Paulo.

A viola veio da cultura ibérica, onde parece ter surgido por influência dos mouros. Gustavo Pinheiro Machado (progenitor da aviadora Grésia Pinheiro Machado) era um virtuose da viola e afirmava em uma moda de sua autoria que "a viola tinha pais portugueses, o violão tinha pais espanhóis, ambos eram netos de mouros e bisnetos de hebreus".

Não há dúvida que tenha sido introduzida pelos portugueses. Gabriel Soares de Souza, a ela se refere. Joaquim Ribeiro, no seu precioso "Folclore dos Bandeirantes" fala sobre a moda... e não há moda sem viola. Nos mais antigos documentos que temos manuseado, nos inventários do Arquivo do Estado, sobre a viola há apenas referência determinada e jamais qualificativa. O mesmo se dá com a "rabeca com seu arco de crina do dito instrumento de folia". Cremos entretanto que a vida nômade dos sertanistas e bandeirantes não impedia o uso da viola. Trago para estas páginas o testemunho insuspeito de meu avô materno, Virgílio Maynard, tropeiro, que dos 12 aos 60 anos anos de idade, isto é, desde 1870 palmilhou as ínvias estradas do Rio Grande do Sul a São Paulo. Contava que nunca vira seus peões e camaradas viajarem sem sua viola, quase sempre conduzida dentro de um saco, amarrada à garupa de seu animal vaqueano. Não havia pouso que após o trabalho azafamado do dia, não tocassem antes de dormir o sono reparador. Quando a zona era infestada por animais ferozes e havia necessidade de dormir com o fogo aceso noite a dentro, o violeiro, no interregno de lançar achas ao braseiro, plangia sua viola dolentemente.

As violas mais antigas que temos tido conhecimento são feitas à mão por algum "curioso". É recente sua industrialização. As violas feitas em série e vendidas a baixo custo são inferiores em som às feitas à mão. Tiveram porém, o privilégio de desbancar aquelas, sendo hoje raríssimo encontrar "fazedores de viola". Embora o violeiro dê preferência à feita à mão, economicamente se vê obrigado a comprar a industrializada. E digno de nota, estas são vendidas nas "Mecas" do catolicismo romano em nosso Estado. Assim podemos ver em Pirapora do Bom Jesus, Aparecida do Norte, Bom Jesus de Iguape e Bom Jesus dos Perdões, onde os romeiros, na sua maioria gente da roça, aproveitam para cumprir suas promessas e fazer sua "comprinha". Nessa Mecas, ao lado das belíssimas manifestações de fé ou histeria coletiva, da sinceridade, da promiscuidade que a falta de acomodações facilita, da jogatina "inocente", há manifestações riquíssimas do folclore: o linguajar característico, danças com indumentária garrida, trajes e costumes diferentes, oferecida de ex-votos que em geral são peças esculturadas ou pintadas, enfim se põe em contato com um mundo de coisas que bem merecem um estudo acurado de um sociólogo. Nos quatro lugares acima mencionados, pudemos em 1946,1947 e 1948, constatar a venda de violas industrializadas e as raras feitas à mão e ao mesmo tempo confirmar a diferença que havíamos notado entre a viola de beira-mar e a de serra-acima.

A linha divisória seria tomada pela Serra do Mar, pois este elemento geográfico também delimita em parte os costumes, nos dando marcantes diferenças entre o caiçara do litoral e caipiras do interior. Comprovamos o fato da influência geográfica nos usos e costumes com o fato de em Xiririca, Jacupiranga, Miracatu, Sete Barras, Registro e mesmo Iporanga, serem bem distantes do litoral, mas muitos de seus usos e costumes serem idênticos aos de Cananéia e Iguape. Há grande identidade na linguagem, nas danças como o Fandango, Congadas, Folias de Reis e também no uso da viola ao lado da rabeca. Até nos implementos das danças, como seja o tamanco para o fandango rufado, os feitos no litoral são idênticos, até na escolha da madeira e fixação da contra-alça, aos das cidades marginais do Rio Ribeira.

É claro que os acidentes geográficos, os meios de comunicação influenciem os usos e costumes. A facilidade de compra de um instrumento contribui para que se generalize a sua adoção. Assim é que, antigamente, os moradores de Cunha, que levavam dois dias para ir até Guaratinguetá ou Aparecida, e apenas um para ir até Parati, no litoral fluminense, adotaram a viola do tipo angrense ou do litoral. É largamente disseminado como o é no litoral o uso da rabeca, até mesmo na dança de Moçambique. Com o estabelecimento da estrada de rodagem, a ligação diária por meio de ônibus entre Cunha e Guaratinguetá até os moradores de Taboão, encostados na Serra do Mar, preferem hoje adquirir suas violas em Aparecida do Norte. Aliás, fenômeno idêntico podemos constatar em São Miguel Arcanjo, no sul do Estado. Devido ao fato de descerem anualmente, por ocasião das romarias de 6 de agosto ao santuário de São Bom Jesus de Iguape, para o cumprimento de promessas, encontramos alguns traços da cultura material litorânea entre os caboclos dessa zona. Zona que no passado esteve circunjacente às estradas de tropeiros. Mas anotamos a presença de panelas de barro do Peropava, bairro de Iguape, e até a viola do tipo do litoral, feita em Guaxixi, bairro de Cananéia, vendida em Iguape.

Tipos de Viola

Dos tipos de violas conhecidos estudaremos os dois encontrados com maior freqüência em nosso Estado: a viola paulista e a angrense ou do litoral. Nossa pesquisa cingiu-se apenas ao Estado de São Paulo. Quanto ao litoral paulista, tivemos a preocupação de estudar a zona litorânea mui ligada ao nosso. Assim sendo, Angra dos Reis e Parati (Estado do Rio de Janeiro) foram visitados e observados por causa de suas constantes ligações com Ubatuba e no sul até Paranaguá (Estado do Paraná) pelas suas relações com Cananéia e romeiros que vêm anualmente até Iguape.

Dos outros dois tipos nos referimos a eles pelo fato de termos conhecido em mãos de migrantes de Estados de Goiás (um baiano que lá morou) e de um boiadeiro matogrossense, que nos facilitou um exame detido em sua viola cuiabana. Tipo idêntico ficamos conhecendo no Museu Paulista que seu diretor, Dr. Sérgio Buarque de Holanda, há pouco trouxe de Cuiabá. Sua caixa sonora é escavada na madeira, e a tampa de trás é colada com cola vegetal.

Em nosso estudo chamaremos de viola paulista àquela encontrada no interior de nosso Estado nos sítios e fazendas estudados e viola Angrense, ou melhor, do litoral, àquela encontrada no litoral paulista e cidades do vale do Ribeira. Será melhor chamarmos de viola do litoral, porque em novembro de 1947, estivemos em Angra dos Reis e constatamos que com o falecimento de antigo fabricante das afamadas violas angrenses, não há mais quem as fabrique naquela cidade sul-fluminense. Ficou no entanto, o tipo. E no sul do Estado, em Cananéia, no bairro de Guaxixi, encontramos um fabricante, cujas violas são absolutamente do tipo angrense, já nosso conhecido. Os dois tipos de viola: paulista e do litoral, que pertenciam à nossa coleção de instrumentos de música, hoje figuram na Seção de Folclore recentemente organizada no Museu Paulista pelo etnólogo Prof. Herbert Baldus.

Vamos tentar descrever os dois tipos de viola, onde ressaltaremos as diferenças marcantes, como seja: construção, dimensões, número de cordas e material utilizado para as cordas.

Tipos de bocas de violas paulistas, feitas à mão em Tatuí, SP.

A viola é um instrumento cordofônio, em que as cordas comunicam sua vibração ao ar. É feita de madeira, compõe-se de uma caixa sonora e uma haste que é popularmente chamada de braço.

Chamaremos de viola Paulista àquela cuja espessura de caixa de ressonância não excede de 7 centímetros, usa dez cordas, ou melhor, cinco cordas duplas, elementos característicos encontrados nos municípios estudados.

Os informe sobre a construção da viola, nome das peças, madeiras empregadas e afinações foram dados pelo Sr. Zico Brasiliano Brandão. O informante é caboclo, natural de Tatuí. tem 37 anos de idade e a sua profissão é fabricante de viola e consertador de máquinas de costura. Dentre os 818 violeiros entrevistados com suas violas, desde 1935 até a presente data, este fabricante de violas é o que maior número de afinações conhece, sendo um ótimo violeiro. Seu pai foi fabricante de violas e um dos mais afamados violeiros e cururueiros do sul do Estado. Contou-nos seu filho que ele conhecia cerca de 25 afinações. Seu filho não apenas herdou "a veia artística", mas também é o seu continuador na fabricação do instrumento. Sua fabriqueta nada mais tem do que uma banca de carpinteiro, as formas para colar os aros e as ferramentas, destacando-se um bom canivete. Fabrica violas de encomenda, conserta instrumentos de corda, e quando tem um bom número de violas prontas, faz viagens para Apiaí, ltararé, Estrada Mayrink-Santos, Botucatu, Avaré, Itapetininga, vendendo os seus instrumentos. Afirma ser bem recebido em todas os lugares onde vai, nunca tendo despesas porque as pessoas do sítio fazem questão de hospedá-lo a fim de que os alegre com suas musicas.

Nas suas viagens, Zico sempre leva sua viola de 14 cordas, cuja caixa de ressonância é feita com a carcaça de tatu, o que provoca admiração dos caboclos. Volta depois de ter vendido todos os seus instrumentos. No Estado do Paraná, são muito conhecidas as afamadas violas de Tatuí.

Zico Brandão, o "Rei da Viola" de Tatuí.

As grandes fábricas de instrumentos da Capital Bandeirante também fabricam violas, havendo o tipo "standard", bem acabadas e bonitas, estreitas, mas não gozam da preferência de nosso caboclo. A industrializada, "standard" é pequena, caixa estreita. A que serve para as exibições nos palcos e rádio, são do tamanho de violões, sendo que a disposição dos trastos é diferente, geralmente estas violas são de cedro ou jacarandá da Bahia.

A viola paulista tem tamanhos diferentes, porém, guardando sempre uma espessura pequena de caixa, em contraste com a do litoral que tem uma caixa muito larga, igual a largura do violão. Zico Brasiliano Brandão, mostrou-nos as formas dizendo serem 8 tamanhos distintos.

O fabricante de violas de Santa Isabel, sr. Lourenço Marques, disse-nos só fazer 3 tipos: pequeno, médio e grande, embora saiba que há intermediários entre esses tamanhos.

Em Piracicaba existiam alguns fabricantes de violas. Nessa "Capital do Cururu" o tipo de viola preferido foi o "mochinho". Juca Violeiro fabricou muitas violas Os melhores "môchos" que conhecemos são de sua lavra. José Barbosa, "modinheiro" dos melhores, é um fabricante de violas. Recentemente inventou fazer a caixa sonora de suas violas de latão. No "Centro de Folclore de Piracicaba" tivemos oportunidade de examinar um exemplar. Afina muito bem, porém, o som é metálico. Alguns cururueiros afirmaram que é muito alta sua afinação, o que os dificulta e cansa cantar a noite toda com tal instrumento.

O tamanho número um, conhecido por Machete ou Machetinho, é o menor, 4 cordas e geralmente usado pelas crianças. Afirma o sr. Zico que antigamente fazia muitos "machetinhos", hoje, porém, depois que apareceu o cavaquinho industrializado, não há mais encomendas.

Compramos para nossa coleção um machetinho no mercado municipal de Paraibuna. O sr. Juvêncio de Sales fabrica, usando canivete, barbante para enformar e cola vegetal. Os furos para cravelha são feitos a fogo. A madeira usada é a "criuvinha".

A viola de tamanho número dois, pouco maior do que o "machetinho", também não tem saída, somente quando uma moça quer ser violeira é que encomenda.

Um duo genuinamente roceiro

(Sertanejo e Sertaneja)

As de número 3 e 4 raríssimamente feitos em Tatuí são os "Mochinhos". São muito procuradas em Piracicaba pelos seus cururueiros. Alguns exemplares desses mochinhos figuram na rica coleção de violas do "Centro de Folclore de Piracicaba", por iniciativa de seu secretário executivo, Prof. João Chiarini.

A de número cinco ou média é a mais procurada, portanto, são as mais comuns, assim afirmou o sr. Zico Brandão, de Tatui e o mesmo disse o sr. Lourenço Marques, de Santa Isabel.

A viola de tamanho número 6 é bastante procurada pelos violeiros pretos. Afirma sr. Zico Brandão: quando vejo um preto me procurar para "apissui" uma viola, já nem mostro as pequenas, já sei e logo vou dando deste tamanho".

As de número 7, geralmente, são para 12 cordas. O entrevistado afirmou: só baiano é que gosta delas". Para os nossos caboclos, qualquer nortista que fale arrastado do "x" é baiano.

A de número 8 é a maior de todas, tendo um metro de comprimento.

Sendo a viola média, de número 5 a mais comum, vamos dar as suas dimensões: 75 centímetros de comprimento. Caixa de ressonância, 35 centímetros, braço 20 centímetros e palheta 20 centímetros. A altura da caixa de ressonância, 5,5 centímetros próximo ao braço e 6,5 noutra extremidade. Boca, 5,5 centímetros de diâmetro.

 

ANATOMIA DA VIOLA

A viola compõe-se das seguintes partes: caixa de ressonância, boca, braço e palheta.

CAIXA DE RESSONÂNCIA

A caixa de ressonância é conhecida pelas seguintes designações: caixa, bojo, ou corpo.

A caixa é composta de um aro e duas tampas. O aro pode ser inteiriço, ou em dois pedaços, sendo coladas as suas extremidades quando na forma, ficando a emenda embutida no taco de segurança do cavalete. Usam cola vegetal de sumbaré. O aro é que tem as curvas. Para execução dessas curvas, uns fabricantes usam formas, outros fazem a "olho" Aliás o "olhômetro" é o grande aparelho de precisão com patente nacional brasileira.

Na tampa da frente, ou "peito da viola", ficam o cavalete e a boca, isto é, uma abertura, que põe em comunicação a caixa de ressonância com o exterior. Paralelamente ao cavalete fica o rastilho, peça não fixa de taquara. A tampa posterior ou "costa" é inteiriça, uma tábua só sem emenda.

Na construção da caixa de ressonância entram as seguintes peças: 3 travessas para sustento da tampa posterior, 2 travessas para sustento da tampa anterior, taco de segurança do cavalete, armação para o braço (ficando para o lado de fora o gastalho). O aro, onde internamente são grudadas as viras de filete, para resistência, ou contra-fortes, onde serão coladas as tampas.

Empregam-se as seguintes madeiras no aro: guaiuvira (preferivelmente), jacarandá, canela saçafrás. A espessura do aro é de 2 mm. Nunca é mais grosso porque a madeira tem que entrar na forma fazendo as curvas, quanto mais fina, mais flexível. As tampas são feitas preferivelmente de pinho, porque dá maior sonoridade. O tampa das costas às vezes pode ser feita de cedro ou canela, mas a da frente sempre é de pinho. Devem ser madeiras bem secas. Dizem que a madeira deve ser cortada na lua minguante de mês que não tem "r" para durar mais, ser flexível e também não carunchar. As tampas que são de 2 a 3 mm de espessura, geralmente feitas de tábua de caixão de pinho. O fabricante entrevistado costuma comprar caixões, desmancha-os e guarda as tábuas num lugar seco durante 2 ou mais anos, "pra ficá cum mais alma", isto é, melhor som. Primeiramente, antes da guerra, o Sr. Zico Brandão, famoso fabricante, adquiria caixões de pinho de Riga, que davam as melhores violas que até hoje fabricou.

A largura do bojo é de 25 centímetros, onde se cola o cavalete, e a menor é de 18 centímetros, na parte inferior deste, no centro da cintura que dá um pequeno estrangulamento fica a abertura, a boca.

A caixa de ressonância às vezes é invernizada. No pequeno tamanho da caixa de ressonância da viola paulista, em contraste com o grande tamanho da caixa da viola do litoral, é que reside boa parte da diferença entre estes dois tipos de viola.

BOCA

A abertura que põe em comunicação a caixa de ressonância com o exterior é a "boca". A boca da viola pode ter diversas formas, sendo a mais comum em forma de coração para as feitas à mão, e circulares, as estandardizadas pela máquina.

Outros tipos de "boca" encontradas entre as violas feitas à mão: dois corações, estrelas, coração e raramente o losangular.

Ao redor da "boca" é costume fazer alguns desenhos ou encastoar malacacheta. Os desenhas são pirogravados. No litoral encastoam pedaços de conchas, e no serra-acima, malacacheta.

Os desenhos, "enfeito" como dizem, em geral são pirogravados, mas também temos encontrado feitos a lápis, tinta de escrever, e em Piracicaba, uma riquíssima viola com uns desenhos a óleo e o apelido daquela cidade, "Noiva da Colina".

Há violeiros que mandam escrever seus nomes ou apenas iniciais. Outros, algumas frases, nome de mulher. Zico Brandão pirogravou em sua viola: "Os reis da viola", ao lado do desenho de um "pinheiro". Flores estilizadas, em geral é o "enfeito" mais encontrado.

BRAÇO e PALHETA

A haste ou "braço" compõe-se de duas partes distintas: braço e palheta. Muitos violeiros chamam aos dois tão somente de braço. Aliás, na viola há muitos nomes das partes do corpo humano usados para denominações e isso revela que o nossa caipira empresta ao instrumento predileto um pouco da anatomia humana: boca, "cacunda" ou costa, braço, pestana, cintura, ilharga, cabeça da tarraxa e o mais importante é que a viola tem alma. E o inverso também serve para comparação: moça bonita de corpo bem proporcionado é "corpo de viola", e. . . com as nádegas um pouco avantajadas é "corpo de violão", ou "cintura de violão".

Mas, voltemos ao braço da viola. Nele estão os trastos ou pontos, divisões de metal. Na parte superior do braço está a palheta e como já apontamos ela é enfeitada, lisa ou "trabalhada".

Na palheta estão os artifícios onde se ajustam as cravelhas para a afinação. Cravelha vem do latim, clave, que deu chave, "clavelha", chave pequena e ficou cravelha. Nela distinguimos três partes distintas: orelha ou chapinha, corpo e pique ou furo onde a corda é enroscada ou enfiada.

 

Quando nos referimos ao número de cordas, convém lembrar que há uma diferença entre as violas do litoral (tipo angrense) e nas quais os caiçaras usam apenas 7 cordas. Nestas violas (Cananéia, Iguape, etc.), é comum encontrar-se uma outra corda que não atinge o braço todo e a cravelha não se aloja na palheta; há, grudado por fora do gastalho um pequeno dispositivo onde está a pequena cravelha. A este conjunto chamam de "piriquito" ou benjamim (ver figura abaixo). Nas violas do litoral há portanto uma pequena corda (a oitava), chamada cantadeira, fica acima do contra-canotilho e afinada em uníssono com o contra-bordão ou melhor, contra- canotilho. No serra-acima paulista, principalmente nas zonas antigas onde não há influência nordestina ou outras, o que se dá realmente nas zonas pioneiras, novas, os caipiras usam encordoar as suas violas com uma dezena de cordas. Dizem que a viola tem dez cordas, porque dez são dedos da mão. No entanto já vimos violas com 12 cordas e até 14 como aquela célebre feita por Zico Brandão de Tatui - "o rei da viola", cuja caixa de ressonância era feita de casca de um tatú-etê. Viola que merecia figurar num museu.

 

 

Sobre as partes da viola, antes que falemos das cordas, da sua ordem e "tempero"', isto é afinações, transcrevemos uns trechos de uma toada cantada por Amaro de Oliveira Monteiro, poeta violeiro de São Luís do Paraitinga, recolhidos no dia 19 de setembro de 1948:

I

"Viola, minha viola,

vamo no campo chorá,

você sabe e não me conta

onde meu amor está".

 

II

"Chora viola sentida

nos peito de quem padece

sê minha viola sabe

quem meu coração não esquece".

 

III

"Minha viola é testemunha

do que eu tenho passado,

muita mágua dolorida

ela tem me consolado".

 

IV

"A viola é bençoada

por a folia acumpanhá,

inté no braço de santo,

a viola já foi pará".

 

V

"No braço de São Gonçalo

a viola já tocô

por ela sê abençoada

nos braço dele ficô".

 

VI

"Toda viola é interiça

é feito de doze pedaço,

as cravêia e os ponto

e as corda são de aço".

 

 

VII

"Este pinho tem cacunda

tamém é feito com cola,

e pode somá a conta

que intera doze co'a viola".

 

VIII

"A viola tem banda e braço

aonde toco meus pontiadão,

seguro ela pelas iarga

e faço chorá dois coração".

 

IX

"Viola, minha viola,

cavalete de canela,

no tampo e o buraco

que afirma os tempero dela"..

 

X

"Viola, minha viola,

rastilho de coquero,

eu faço as pedra rolá

quano pego neste pinhero".

 

XI

"Viola, minha viola,

foi feito de jacarandá,

quem tocá esta viola

vai no céu e torna voltá"

 

XII

"Esta moda vai de lembrança

como prova de amizade,

pra quano tocá viola

pra de nois tê saudade".

 

 

 

CORDAS, ORDEM E "TEMPÊRO"

Em geral as cordas são de metal, mas já houve tempo em que se fazia corda das tripas de mico, macaco, coati e até ouriço. E houve muitas violas cujas primas, segundas e terceiras e contra-canotilho eram de origem animal. Antigos violeiros de Tietê afirmaram ser excelentes. Ouvimos também no litoral tal afirmação. Antigos violeiros inquiridos nessa região, contaram-nos que eram muito mais duráveis, pois as metálicas, devido ao ar marinho, enferrujam facilmente. Hoje os cordas são de seda e até de nylon.

Quanto a ordem das cordas da viola, indicaremos o de uma encordoada por violeiro destro e não canhoto, conforme clichê publicado em número anterior. Por exemplo, numa viola piracicabana, um mochinho de Borbosão do Centro de Folclore de Piracicaba, certa feita anotamos o material das cordas: canotilho de seda e a companheira do conotilho era de metal amarelo nº 10; toeira (ou tuêra) era de aço, coberta e a companheira era de metal branco nº 9; a contra-turina e turina eram brancas (isto é, aço) de nº 9; a contra-requinta, branca n.0 9 e a requinta, amarela n.0 10, e finalmente, contra-prima e prima eram de aço, branca n.0 10.

Alguns caipiras guardam ainda o termo folclórico para designar as cordas de aço nº 9 e 10, chamam-nas de verdegais, o que nos fazem lembrar o nome das cordas da guitarra portuguesa. Aliás, a origem dos nomes das cordas nos dizem que o vocábulo conotilho vem do italiano "canatiglia". Toeira vem de toar, isto é, dar som forte, soar. E' o mesmo nome usado na guitarra, são as imediatas aos bordões. A toeira é a corda que tem som forte. A requinta é além de uma espécie de clarinete de som agudo, a denominação de viola ou guitarra, pequenas, muita menores do que essas comuns nossas conhecidas, assim do tamanho do mochinho piracicabano. João Chierini pode orgulhar-se de ter uma das mais completas coleções de "requintas" no Centro de Folclore Piracicabano. E a turina, donde virá? De Turim? Não. Analogicamente sua origem deve vir de turi, espécie de clarim usado na Índia durante o cerimonial da cremação. E dizem os violeiros que os turinas são as cordas mais chorosas da viola!

 

 

Tomam cuidados especiais para que a viola, quando guardada não fique com as cordas encostadas à parede porque ela "constipa", isto é, se resfria. A umidade enrouquece a corda.

Duas causas fazem a viola sofrer: calor ou frio intensos. No entanto, ela é muita mais sensível ao mau olhado e a inveja que destemperam a viola, e jamais pegará afinação. Para evitar, usam dentro da caixa de ressonância, um pequeno galho de arruda, lasca de guiné, dente de alho. E para dar eletricidade às cordas, maior sonoridade, só o guizo de cascavel. É, e não resta dúvida, magia simpática. E violeiro que se preza não se esquece de colocar um guizo de cascavel em sua viola.

Tempero é a afinação. Esta varia muito. Dizem alguns caipiras paulistas que há vinte e cinco afinações diferentes. Mas o número 25 para eles significa imensidade, o incontável, multidão. Conhecemos as seguintes afinações para violas da serra-acima paulista:cebolão, cebolinha, ré-abaixo, castelhana, quatro-pontos, oitavado, tempero-mineiro, tempero-pro-meio, guariano, guaianinho, guaianão, temperão, som-de-guitarra, cana-verde, do sossego, pontiado-do-Paraná.

A preferência pelas afinações varia muito. Para cantar moda, a melhor afinação é o quatro-pontos e para cururu é afinação cana-verde. Cebolinha é boa também para moda. Cebolão é muito usada para dança do cateretê. Os violeiros mais jovens, e muitos dos que hoje militam nos rádios não conhecem tais afinações, suas violas são afinados como violão. Para moda de viola, na região do médio Tietê, os violeiros usam estas afinações: cebolão, quatro-dedos, castelhana ou três-pontos-da-viola e ré-abaixo. No cururu, nesta mesma região, notamos a preferência pelas cebolão e ré-abaixo, principalmente nos pousos do Divino nas imediações da cidade de Tietê.

Em Taubaté, a afinação usada para dançar o cateretê é: fá sustenido, si, mi sustenido, sol sustenido, dó sustenido.

O cebolão, também boa afinação para sapateado é: ré, sol, si, ré, sol. A cebolinha (simples), boa afinação para cantar moda, e, pestaneando no segundo trasto é ótima afinação para sapateado é: mi, si, mi, sol sustenido e si. A cebolinha (três cordas), ou ré-acima ou cebolinha-pelo-meio, muito usada para execução de solos musicais é: ré, sol, ré, fá sustenido e lá. A cana-verde ou cururu: ré, sol, si, mi, lá. O oitavo ou pontiado-do-Paraná ou guitarra, outros nomes de tal afinação é ótima para fandango e muito usada para pontear uma moda: ré, sol, dó, fá, lá sustenido. Do sossego, também chamada castelhana porque é mais comum usar somente ao tocar, as três primeiras cordas: ré, fá sustenido, lá, dó sustenido, fá. A Quatro-pontos, generalizada nas rádios é como a afinação do violão: lá, ré, sol, si, mi.

Luís da Câmara Cascudo - o papa do folclore brasileiro - assinala outras afinações em "Vaqueiros e Contadores", isto lá no nordeste: mi, si, sol, ré, lá e si, fá, ré, lá, mi.

Oportunamente daremos as afinações bem como as respectivas primeira, segunda e terceira posições.

 

EMPUNHADURA OU POSIÇÃO

 

Duas são os maneiras ou posições de segurar a viola: a posição profana e a sagrada. Naquela, o viola fica apoiada no ventre ou mesmo repousa sobre a perna (coxa) do tocador quando sentado. Na posição sagrada, é tocada tão somente em pé, ficando a viola apoiada no colo, senda que o queixo (mento) do violeiro repousa sobre o instrumento. Em geral, quando na posição religiosa, o violeiro fecha os olhos ao dedilhar a viola.

Estas denominações de profana e religiosa que propusemos para as duas posições características de segurar a viola, valem apenas para a região paulista, para a paulistânia. Em nossas andanças pelos 4 ventos do Brasil, em 1951, 1952, 1953, quando estivemos no centro, norte e nordeste, tivemos oportunidade de verificar que a viola é empunhada diferentemente da maneira de nossos caipiras e caiçaras bandeirantes.

O geral, o comum é segurar o braço da viola com a mão esquerda e com a direita dedilhar as cordas. Das várias maneiras de planger as cordas da viola ou "pinicar" como genericamente se referem a esta ação, podemos destacar a mais delicada, maneirosa e suave delas, que é o ponteio, "jeito choroso" para acompanhar as modas de "causos" e "assucedidos" que provocam enternecimento e até lágrimas, bem como o riscado para acompanhar as músicas de cunho religioso como sejam as de folia do Divino ou de Reis, dança de São Gonçalo. Há as maneiras vigorosas usadas em geral para danças: batidas e rasqueado e o maião (malhão, vem de malhar, bater), toque característico do cururu.

Hoje, por causa do descobrimento das maneiras de dedilhar a viola, tais denominações tornaram-se gêneros: rasqueado, batido, ponteio, maião. E tais males são recente, oriundos da improvisação de nossos locutores que, por ignorância ou avidez de apresentar novidades, generalizam tudo.

 

AS DOENÇAS DA VIOLA

Basta haver amor por determinada cousa, para que o homem lhe empreste imediatamente certos atributos humanos. A viola, instrumento que maior número de amantes tem tido entre o povo do meio rural brasileiro, por isso mesmo padece das muitas doenças que atormentam o ser humano. A viola se resfria, se "constipa", apanha "quebranto", fica rouca ou fanhosa, se "destempera" e chega até a ficar reumática.

As doenças da viola seriam provenientes desse antropomorfismo que lhe é atribuído pois tem braço, costas, boca, ilharga, orelhas (cravelhas), "cacunda", pestana, etc., ou da afeição que identifica instrumento e tocador?

De médico, poeta e louco todo mundo tem um pouco e o violeiro cuida da saúde de sua viola: contra quebranto, galhinho de arruda no seu interior, jogado boca a dentro em noite de 6a. feira, na primeira após a compra do instrumento; há um processo de magia simpática para dar melhor "voz" às cordas, colocando um guizo de cascavel. E contra todos os fluidos prejudiciais, nada melhor do que uma fita vermelha para desviar o mau olhado e a inveja. E bom violeiro é sempre invejado! Tocar viola é uma cousa tão almejada que chegam a fazer pacto com o diabo na 6a. feira santa, conforme assinalamos em nosso livro "Alguns Ritos Mágicos".

Quer ver violeiro contrariado, é um estranho tocar em sua viola ou pedir licença para "arranhar as cordas". Lá com seus botões o violeiro fica mandando ele arranhar... Bem, não diz nada, mas pensa. A mão de estranho "destempera" porque transmite eflúvios maléficos ao seu instrumento. . . é pior do que se "botasse mau olhado".

Além da fita, e esta não deve ser confundida com aquelas de promessa que os violeiros das folias de Divino carregam como ex-votos, raro é o violeiro que não tenha escondido um amuleto sanitário: uma figa, um signo de Salomão, intrometido na palheta.

Há violas que se "constipam", isto é, que se resfriam só pelo fato de serem guardadas com as cordas encostadas á parede que lhe transmite umidade. Violeiro que se preza não a dependura assim e sim a mete num saco para guardar num gancho ou prego. À noite estando sozinha, sente frio, porque nas braços do violeiro, ela sente calor. Mas, há violas que precisam tomar sereno para ficar com boa voz, para "declarar bem". Outras, com o sol se arruinam e chegam a se "destripar", descolam o tampo dos aros: é a insolação.

Antes de guardar a viola, deve-se passar um pano sobre as cordas, num sentido só, "para não lhe tirar o sentido", endoidecê-la: do trasto para a palheta, assim ela não ficará fanhosa.

Até o enfeite das violas é amuleto sanitário: a pintura de flores em sua tampa ajuda a afastar o quebranto. E as flores escolhidas são aquelas onde predomina o vermelho, por exemplo, as flores da maravilha (mirabilis jalapa, Lin.) com as quais as crianças ainda hoje fazem colares e antigamente os violeiros, principalmente os negros, colocavam-nas na pescoço nas romarias de São Gonçalo ou nos pousos de cururu. E' por isso que Antonio Adão (Antônio Rodrigues de Lara) - o poeta das flores, pretalhão de dois metros de altura, tem uma viola cheia de fitas e flores de maravilha pintadas, como assinalou o folclorista João Chiarini. E' a constância de certos traços culturais que permanecem. E' uma forma medicinal de evitar as doenças de sua viola que foi feita pelo saudoso piracicabano Juca Violeiro (José Antônio Maria), mulato quase centenário que ali no Bairro Alto, à rua Morais Barros, na minha cidade natal (Piracicaba) fazia violas, verdadeiros Stradivarius caipiras - mochinhos e violas - guardados alguns exemplares nesse fabuloso museu do "Centro de Folclore de Piracicaba".

Não há viola lunática, mas todas sofrem influência da lua. Na lua nova e "na força da lua" não se guarda viola afinada, ela pode ficar "corcunda", entortar, "estuporar", bem como rebentar a corda. Madeira para viola deve ser cortada nos meses que não tem "r" (maio, junho julho, agosto) e na minguante para nunca apanhar caruncho, Viola com caruncho é leprosa...

Violeiro que se preza não carrega viola debaixo do braço e sim na mão, segurando-a pelo seu braço. "Viola é mulher, e quem sai com ela na rua, vai de braço dado. Violeirinho de meia pataca é que põe a viola debaixo do braço. O sovaco é lugar de encostar a muleta e não a viola". Viola carregada debaixo do braço fica reumática, não afina mais, fica mancando das cordas.

Embora o viola tenha lá suas doenças, é inegável o poder que ela possui para curar as doenças quando tocada em romarias para São Gonçalo do Amarante. A viola nas danças do santo português - padroeira dos violeiros, além de arrumar casamento para as moças que vão ficando para "tias", cura também reumatismo. Quem num cateretê "pisar nas cordas da viola", isto é seguir-lhe o ritmo, sem errar, jamais ficará doente dos pés, das pernas, nunca terá "veia quebrada" - varizes. E' portanto um preventivo maravilhoso que só os catireiros têm o privilégio de possuir.

Se por um lado há doenças da viola, por outro ela tem grande função medicinal. Ela cura as doenças, mata a saudade, elimina a tristeza, realiza a psicoterapia profunda melo-medicinal. Acontece que a função medicinal da música é cousa velhíssima O grande salmista Davi, conforme registra a Bíblia, tocava a sua harpa para alegrar o hipocondríaco Saul para curá-lo da misantropia que o assaltava de vez em sempre.

Repete-se com o instrumento predileto do nosso caipira - a viola - o mesmo destino medicinal da harpa - ela cura as doenças dos homens tristes. Quem resiste à alegria contagiante de um cateretê riscado nas cordas de uma viola? Qual é o reumático que não entra e desenferruja os ossos sob o ritmo desencarangador de uma dança de São Gonçalo? Qual é o "descadeirado" que não participa da um fandango valsado ou toma o "suadouro" de um "recortado" de fim de pagodeira quando os violeiros já entrevem "barra do dia" dealbando no horizonte e a função vai se smorzando?

A lei da compensação ai está: o bom violeiro cuida de sua viola para que ela não apanhe doenças, seja sempre sã, e ela recompensa, uma boa viola, bem tocada dá alegria para o homem e já dizia Salomão nos seus Provérbios: "O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela dor do coração, o espirito se abate".

E' por isso que "violeiro morre é de velho"

AFINAÇÕES DA VIOLA

Em geral as afinações da viola são conhecidas por nomes regionais, populares assim: cebolinha, cebolão, do sossego, etc... Por exemplo, afinação em Mi é a Cebolão. E como muitos violeiros só conhecem uma afinação, afirmam que na viola não há "tom menor", dando só a posição "maior".

Ilustramos com clichês algumas afinações com seus respectivos nomes populares, regionais paulistas. Comecemos com o Cebolão, uma das mais comuns.

Boa afinação para sapateado, por isto mesmo a preferida pelos catireiros, xibeiros, catereteiros e fandangueiros. Em geral os violeiros genuínos dizem que é a mais positiva das afinações: "é a que São Gonçalo ensinou", dizem os seus devotos. Outros, " a melhor para se pisar nas cordas da viola", " não desaparece por mais ferrado que seja o palmeado do cateretê."

 A Cebolinha simples é a afinação preferida pelos modinheiros. Fazendo uma pestana no segundo trasto é "quatro paus" para sapateado, "declara bem no bate-pé".

Há outra cebolinha (pelas três cordas) também conhecida por "Ré Acima" ou "Cebolinha pelo meio", apropriado para solar músicas. Nesta afinação, o pai da aviadora Anésia Pinheiro Machado, o itapiningano Gustavo Pinheiro Machado, saudoso virtuose da viola, tocava tudo: desde as modas de viola até Chopin, desde os cateretês mais barulhentos até Brahms. Hoje, ainda os poucos solistas que nós conhecemos, preferem-na às demais.

 A afinação Cana Verde ou para Cururu é uma das mais simples (ré-sol-si-mi-lá) utilizada para a cantoria destas duas modalidades.

A afinação preferida para o Fandango, pelo menos foi o que anotamos no litoral sul paulista, é a oitavado, de Guitarra ou Ponteado do Paraná. Os paranaenses do litoral norte, de Paranaguá e adjacências, quando vão em romaria à Iguape, a 6 de agosto de todos os anos, costumam afinar suas violas desta maneira (ré-sol-dó-fá-lá sustenido) Quem sabe vem daí chamarem-na de Ponteado do Paraná. Usada também para ponteio e moda, não apenas para a dança do Fandango, modalidade de dança que está desaparecendo, tanto o fandango rufado ou batido, como o fandango valsado ou bailado.

Sossego ou castelhano é uma das posições pouco usadas, embora seja uma das mais fáceis para execução.

 Quatro-pontos - Esta afinação é igual à do violão. Em geral, tocador de violão quando passa a tocar viola, afina-a nesta.

 

Em Ubatuba, encontramos duas afinações que a princípio julgamos novidade: a de Reza e a de Contoria do Divino. Após exame perfunctório verificamos que as duas nada mais são do que a Quatro-Pontos do serra-acima, que no beira-mar assumiu denominação diferente. Para a Cantoria do Divino a colocação dos dedos é do primeiro ao terceiro trastos, já para a Reza é do quinto trasto ao oitavo.

As afinações variam de região para região brasileira, assim é que existem as chamadas goiana, goianão, ponteado do Paraná, etc. Em S. Paulo, onde os filhos de outras Estados têm vindo para a obra de engrandecimento desta grande forja de trabalho, para os cafezais ou pastoreio, têm recebido a influência dos demais filhos desta grande Nação na sua arte popular e no que concerne à músico ou uso de um instrumento como a viola, o fato é verificável, está ai para ser pesquisado e estudado. Assim é que muitos nordestinos gostam de afinar suas violas em: mi-si-sol-ré-lá. É claro que a inter-relação favorece a influência e a adoção de novos padrões. No entanto, os paulistas genuínos continuam a dar preferência ao Cebolão. É claro que as referências também podem variar, por exemplo em Taubaté, para o Cateretê a afinação é fá sustenido, si-mi sustenido - sol sustenido - dó sustenido.

Diz o velho ditado: "em festa de jacu, inhambu não pia". É bom que me cale por aqui, pois este assunto é para os musicólogos e não para antropólogo que entrevistou 818 violeiros. Pontofinalizamos aqui o nosso estudo sobre a Viola.